terça-feira, 25 de outubro de 2011

Previsões para o Oscar - 25/10:

Oi, pessoal. Olha eu aqui outra vez falando com voces sobre o careca dourado... se acostumem, porque até o final de janeiro (quando sai o anúncio dos indicados), Enid terá voltado aqui diversas vezes para falar sobre o mesmo assunto, 'again and again'... hehehehe...

Com novas exibições nos EUA, o circuito volta a se sacudir e os peões voltam a se mexer. Quem são os novos favoritos a indicações? Com os nomes e motivos em cada categoria, vamos a eles abaixo.


FILME:

O Artista
Os Descendentes
Cavalo de Guerra
Tão Forte e Tão Perto
Histórias Cruzadas
O Espião que Sabia Demais
O Homem que Mudou o Jogo
Tudo pelo Poder

Alt: J. Edgar; Meia-Noite em Paris; A Árvore da Vida; Hugo; Jovens Adultos; Shame

* Ontem li algo que me parece acertado: "se os acadêmicos votarem com o coração, dá 'O Artista'". Ano passado, vimos exatamente a vitória do coração ('O Discurso do Rei') sobre a razão ('A Rede Social'). Tá, mas e se o 'coração' dos votantes esse ano balançarem mais por outro filme que não essa classuda homenagem à velha Hollywood? E se for um coração partido pelo 11 de Setembro? E se o coração bater mais forte por um astro à moda antiga? E se todos realmente forem pegos por uma ode ao fim da discriminação racial? Ou se voltarmos só um pouquinho no tempo para observar que, às vezes, razão e emoção podem sim andar juntas?


DIREÇÃO:

Steven Spielberg (Cavalo de Guerra)
Michel Hazanavicius (O Artista)
Alexander Payne (Os Descendentes)
Woody Allen (Meia-Noite em Paris)
Stephen Daldry (Tão Forte e Tão Perto)

Alt: Clint Eastwood (J. Edgar); Terence Mallick (A Árvore da Vida); George Clooney (Tudo pelo Poder); Martin Scorsese (Hugo); Bennett Miller (O Homem que Mudou o Jogo)

* Todos não cansam de falar que o ano está fraco, mas porque será que os favoritos não parecem cessar? Por alto ou por baixo, muita gente tem chance sim de concorrer ao Oscar desse ano, mesmo que as mesmas pessoas não tivessem a menor chance em outros anos. A verdade é que, ao que tudo parece, esse pode sim ser um ano onde as categorias de 'filme' e 'direção' podem dividir; ok, isso não acontece há 5 anos, e nem na última premiação aconteceu, quando tudo parecia ir pra esse lado.


ROTEIRO ADAPTADO:

Alexander Payne, Nat Faxon & Jim Rash (Os Descendentes)
Bridget O'Connor & Peter Strong (O Espião que Sabia Demais)
George Clooney & Grant Heslov (Tudo pelo Poder)
Steven Zaillian & Aaron Sorkin (Moneyball)
Eric Roth (Tão Forte e Tão Perto)

Alt: Cavalo de Guerra; Histórias Cruzadas; Drive; Hugo; Os Homens que não Amavam as Mulheres

* Essa categoria continua intacta, e acho que o fato de 'Cavalo de Guerra' ainda estar na tentativa de subir pode ser um bom prognóstico do resultado do filme na competição; nunca duvidem do poder da grana alta que 'Histórias Cruzadas' fez.


ROTEIRO ORIGINAL:

Michel Hazanavicius (O Artista)
Woody Allen (Meia-Noite em Paris)
Diablo Cody (Jovens Adultos)
Sean Durkin (Martha Marcy May Marlene)
Drake Doremus & Ben York Jones (Like Crazy)

Alt.: Shame; Rango: J. Edgar: O Abrigo; Missão: Madrinha de Casamento

* Creio que o buzz de 'Shame' esteja começando agora; como os 3 primeiros são quase intocáveis, acho melhor os 2 filhotes de Sundance tomarem cuidado porque Abi Morgan (de 'Shame' e 'A Dama de Ferro') parece querer uma indicação de qualquer jeito.


ATOR:

George Clooney (Os Descendentes)
Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo)
Leonardo DiCaprio (J. Edgar)
Jean Dujardin (O Artista)
Gary Oldman (O Espião que Sabia Demais)

Alt: Michael Fassbender (Shame); Michael Shannon (O Abrigo); Ryan Gosling (Tudo pelo Poder); Woody Harrelson (Rampart); Peter Mullan (Tiranossauro)

* A dança das cadeiras na categoria não para, e DiCaprio parece nada certo como outrora. Como seu filme/personagem tem peso máximo, ele não consegue sair daqui. Mas é só começar a competição, e a Fox Searchlight ver (ou não) os resultados de sua campanha para 'Shame' que poderemos avaliar melhor. Em tempo: não tirem o olho de Harrelson, pois dizem que é de fato 'a grande interpretação do ano'; só precisa que seu filme seja comprado.


ATRIZ:

Glenn Close (Albert Nobbs)
Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Charlize Theron (Jovens Adultos)
Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Elizabeth Olsen (Martha Marcy May Marlene)

Alt: Michelle Williams (Minha Semana com Marilyn); Olivia Colman (Tiranossauro); Tilda Swinton (Precisamos Falar sobre o Kevin); Felicity Jones (Like Crazy); Rooney Mara (Os Homens que...)

* Outra categoria onde nada mudou... por enquanto. O duro é observar que tanto Williams quanto Colman devem estar anos-luz melhores que Streep (e todos já vendem repúdio a ela, mesmo sem ver um filme que está literalmente escondido). Mas essas 2 atrizes tem tudo para ser as queridinhas dos críticos, e aí sim tudo pode mudar. E deverá.


ATOR COADJUVANTE:

Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Max Von Sydow (Tão Forte e Tão Perto)
Kenneth Branagh (Minha Semana com Marilyn)
Brad Pitt (A Árvore da Vida)
Patton Oswalt (Jovens Adultos)

Alt: Albert Brooks (Drive); Philip Seymor Hoffman (Tudo pelo Poder); Jonah Hill (O Homem que Mudou o Jogo); Nick Nolte (Warrior): Ben Kingsley (Hugo)

* A impressão que eu tenho é que, se 'A Árvore da Vida' quer subir na disputa, é com Brad Pitt que eles devem contar. Enquanto isso, Brooks não caiu nem morreu, apenas deu lugar a outro contendor que está no foco do momento; pode voltar a qualquer momento. De qualquer modo, é difícil imaginar uma outra disputa na categoria que não seja entre os dois veteranos do alto. E que (literalmente) vença o melhor.


ATRIZ COADJUVANTE:

Vanessa Redgrave (Coriolanus)
Berenice Bejo (O Artista)
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Shailene Woodley (Os Descendentes)
Sandra Bullock (Tão Forte e Tão Perto)

Alt: Jessica Chastain (Histórias Cruzadas); Carey Mulligan (Shame); Janet McTeer (Albert Nobbs); Emily Watson (Cavalo de Guerra); Judi Dench (J. Edgar)

* A única em todas as categorias onde não mexi absolutamente nada, nem ordem. Mas queria muito acreditar que todas as 10 podem e devem concorrer, grandes atrizes/promessas que são.


ESTRANGEIRO:

ESTRANGEIRO:

A Separação (Irã)
In Darkness (Polônia)
Terraferma (Itália)
Footnote (Israel)
A Guerra está Declarada (França)

Alt: O Porto (Finlândia); Where do we Go Now? (Líbano); A Simple Life (Hong Kong); Pa Negre (Espanha); Pina (Alemanha)

* Ok, a categoria está muito fácil, eu sei... mas fazer o quê? A Academia não aceitou a indicação da Albânia, e com isso o Joshua Marston perdeu uma indicação fácil. Já a França, vem com um filme sobre um casal de vinte e poucos anos que descobre que seu filho de 3 anos está com câncer! Moleza, né? Eu sei que a categoria sempre apresenta surpresas tiradas da cartola (e com isso, mantenham o olho no México, na Noruega, na Islândia, no Canadá e no Japão). Mas a verdade é que aqui muito pouco pode ser dito antes da tal pré-lista sair, lá em janeiro... sempre dividida entre certezas e surpresas estapafúrdias, o vencedor sempre poderá sair de um grupo ou de outro.


FOTOGRAFIA:

Guillame Schiffman (O Artista)
Janusz Kaminski (Cavalo de Guerra)
Emmanuel Lubeszki (A Árvore da Vida)
Robert Richardson (Hugo)
Eduardo Serra (Harry Potter e as Reliquias da Morte II)

Alt: Tão Forte e Tão Perto; Os Homens que não Amavam as Mulheres; O Espião que Sabia Demais; J. Edgard; Os Descendentes


MONTAGEM:

Michael Khan (Cavalo de Guerra)
Christopher Tellefsen (Moneyball)
Matthew Newman (Drive)
Claire Simpson (Tão Forte e Tão Perto)
Kirk Baxter & Angus Wall (Os Homens que não Amavam as Mulheres)

Alt: O Artista; Hugo: O Espião que Sabia Demais; Tudo pelo Poder; Planeta dos Macacos


FIGURINO:

Mark Bridges (O Artista)
Michael O'Connor (Jane Eyre)
Sharen Davis (Histórias Cruzadas)
Sandy Powell (Hugo)
Jill Taylor (Minha Semana com Marilyn)

Alt: Anônimo; Albert Nobbs; Um Método Perigoso; Meia Noite em Paris; Cavalo de Guerra


DIREÇÃO DE ARTE:

Laurence Bennett (O Artista)
Dante Ferretti (Hugo)
Stuart Craig (Harry Potter e as Reliquias da Morte II)
Rick Carter (Cavalo de Guerra)
Will Hughes-Jones (Jane Eyre)

Alt: Anônimo; J. Edgar; Um Método Perigoso; Meia-Noite em Paris; Sherlock Holmes 2


TRILHA SONORA:

John Williams (Cavalo de Guerra)
Ludovic Bource (O Artista)
Howard Shore (Hugo)
Alexander Desplat (Tão Forte e Tão Perto)
Alberto Iglesias (O Espião que Sabia Demais)

Alt: As Aventuras de Tintin; Tudo pelo Poder; Os Homens que não Amavam as Mulheres; Super 8; Rango


EFEITOS ESPECIAIS:

Harry Potter e as Reliquias da Morte II
Planeta dos Macacos: A Origem
Transformers 3
A Árvore da Vida
Hugo

Alt: Capitão América; Thor; Super 8; X-Men: Primeira Classe; Lanterna Verde


MAQUIAGEM:

J. Edgar
Lanterna Verde
Harry Potter e as Reliquias da Morte II

Alt: O Artista; Piratas do Caribe 4; Hugo


ANIMAÇÃO:

As Aventuras de Tintin
Operação Presente
Rango

Alt: Rio; O Gato de Botas; Happy Feet 2; Carros 2

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Inté, Festival do Rio...

Mais uma vez atrasado, mais uma vez um pedido de desculpas. A justificativa? Não há mais neurônios intactos na massa encefálica do tio aqui, e aos poucos estou me recuperando do cansaço, que também é físico (e nem vou citar que irei me recuperar engatando outro festival em 2 dias...).

Mas nada como um dia após o outro, e cá estou para brevemente comentar os vencedores da competição nacional do Festival. A pergunta que se faz presente é: porquê, Jesus? Diante de uma competição de nível altíssimo (mas que, como toda competição, guardava seus erros crassos), sabe-se lá o que passou pela cabeça do juri ao decidir premiar os 3 piores filmes da competição. O grande vencedor da noite de encerramento foi 'A Hora e a Vez de Augusto Matraga', que de fato não era ruim, mas ficava anos-luz do nível estratosférico de ao menos 6 outros filmes; um filme imperfeito, a estreia no cinema de Vinicius Coimbra saiu vencedora dos prêmios de melhor filme (pelo juri oficial e pelo popular também), além dos merecidos (aí sim) troféus de melhor ator, ator coadjuvante e um especial, respectivamente para João Miguel, José Wilker e Chico Anysio, um trio excepcional.

O prêmio de atriz coadjuvante foi para Maria Luiza Mendonça, por 'Amanhã Nunca Mais', um filme bem fraco, mas que pelo menos rendeu um excelente momento no palco, com Lázaro Ramos recebendo o prêmio pela sua colega de elenco, que estava com o mesmo no telefone e não consegui acreditar na sua vitória. Infelizmente os prêmios acertados para a direção de Karim Ainouz ('Abismo Prateado'), para a melhor atriz Camila Pitanga (emocionada e dona de todos os elogios unânimes por 'Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios'), para 'Sudoeste' (Grande Prêmio do Juri e fotografia) e 'Mãe e Filha' (Menção Honrosa e fotografia também) não vão conseguir esconder o pavoroso prêmio de melhor roteiro dado a um dos piores roteiros não apenas da competição, mas do Festival como um todo. 'A Novela das 8' assim conseguiu não apenas estar na competição errada, como também marcar negativamente uma competição tão harmônica. Simplesmente vergonhoso.

Como não precisamos depender de júri nenhum, possamos cada um de nós fazermos nossas listas de melhores entre os filmes assistidos no Festival, não podemos? Do alto dos meus 62 títulos em 14 dias, faço agora minha postagem especial, apontando os melhores de 2011 em 14 categorias.


DIREÇÃO: Nicolas Winding Refn (Drive)

Top 5:
Bela Tárr (O Cavalo de Turim)
Andrea Arnold (O Morros dos Ventos Uivantes)
Asghar Fahradi (A Separação)
Petrus Cariry (Mãe e Filha)
Selton Mello (O Palhaço)


TRILHA SONORA: Jed Kurzel (Os Crimes de Snowtown)

Top 5:
Plínio Profeta (O Palhaço)
Alberto Iglesias (A Pele que Habito)
Franco Piersanti (Terraferma)
Cliff Martinez (Drive / Contágio)
Howard Shore (Um Método Perigoso)


FIGURINO: Kika Lopes (O Palhaço)

Top 5:
Steven Noble (O Morro dos Ventos Uivantes)
Catherine George (Precisamos Falar sobre o Kevin)
Sarah Finley (Weekend)
Marie-Chantale Vaillancourt (Funkytown)
Sharen Davis (Histórias Cruzadas)


DIREÇÃO DE ARTE: Claudio Amaral Peixoto (O Palhaço)

Top 5:
Daniel Flaksman (Corações Sujos)
Marie-Chantale Vaillancourt (Funkytown)
Polin Garbizu (Post Morten)
Mark Ricker (Histórias Cruzadas)
Peter Grant (Um Homem Engraçado)


MONTAGEM: Matthew Newman (Drive)

Top 5:
Veronika Jenet (Os Crimes de Snowtown)
Céline Ameslon (Caminho para o Nada)
Pauline Gaillard (A Guerra está Declarada)
Laure Gardette (Polissia)
Yvann Thibaudeau (Funkytown)


FOTOGRAFIA: Fred Kelemen (O Cavalo de Turim)

Top 5:
Robbie Ryan (O Morro dos Ventos Uivantes)
Mauro Pinheiro Jr. (Sudoeste)
Petrus Cariry (Mãe e Filha)
Adrian Teijido (O Palhaço)
Adam Arkapaw (Os Crimes de Snowtown)


ELENCO: A Separação

Top 5:
O Palhaço
Tiranossauro
Os Crimes de Snowtown
Polissia
Drive


ATOR REVELAÇÃO: Daniel Henshall (Os Crimes de Snowtown)

Top 5:
Moacyr Franco (O Palhaço)
Chris New (Weekend)
Tom Cullen (Weekend)
Deon Lotz (Beleza)
Lucas Pittaway (Os Crimes de Snowtown)


ATRIZ REVELAÇÃO: Elizabeth Olsen (Martha Marcy May Marlene / Paz, Amor e Muito Mais)

Top 5:
Louise Harris (Os Crimes de Snowtown)
Sareh Bayat (A Separação)
Sarina Fahradi (A Separação)
Sarah Mutch (Funkytown)
Dongyu Zhou (A Árvore do Amor)


ATOR COADJUVANTE: Gero Camilo (Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios)

Top 5:
José Wilker (A Hora e a Vez de Augusto Matraga)
Irandhir Santos (A Hora e a Vez de Augusto Matraga)
Chico Anysio (A Hora e a Vez de Augusto Matraga)
Viggo Mortensen (Um Método Perigoso)
Albert Brooks (Drive)


ATRIZ COADJUVANTE: Simone Spoladore (Sudoeste)

Top 5:
Karin Viard (Polissia)
Marina Foïs (Polissia)
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Bryce Dallas Howard (Histórias Cruzadas)
Melissa Leo (Red State)


ATOR: Peter Mullan (Tiranossauro)

Top 5:
Dominic Cooper (O Dublê do Diabo)
Ryan Gosling (Drive)
Michael Shannon (O Abrigo)
Peyman Moaadi (A Separação)
Shahab Hosseini (A Separação)


ATRIZ: Olivia Colman (Tiranossauro)

Top 5:
Camila Pitanga (Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios)
Tilda Swinton (Precisamos Falar sobre o Kevin)
Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Shannyn Sossamon (Caminho para o Nada)
Leila Hatami (A Separação)


ROTEIRO ADAPTADO: Olivia Hetreed (O Morro dos Ventos Uivantes)

Top 5:
Christopher Hampton (Um Método Perigoso)
Hossein Amini (Drive)
Beto Brant, Renato Ciasca & Marçal Aquino (Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios)
Cristian Jiménez (Bonsai)
Pedro Almodóvar (A Pele que Habito)


ROTEIRO ORIGINAL: Steven Gaydos (Caminho para o Nada)

Top 5:
Asghar Fahradi (A Separação)
Eduardo Nunes (Sudoeste)
Andrew Haigh (Weekend)
Justin Kurzel & Shaun Grant (Os Crimes de Snowtown)
Selton Mello & Marcelo Vindicatto (O Palhaço)


FILME: A Separação

Top 5:
Caminho para o Nada
O Morro dos Ventos Uivantes
Drive
Weekend
Aqui é o Meu Lugar

Menções Honrosas: O Cavalo de Turim / O Palhaço / Os Crimes de Snowtown / Michael / Polissia

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dias 11, 12 e 13:

É, galera... seu sei que estou no furo máximo com voces. Mas tendo ainda 11 (ONZE!) críticas a escrever, tentarei colocar tudo em dia agora. Voces sabem, perdi minha credencial no que seria a véspera do "Dia 10", e por isso ele não existiu (a depressão nele sim). No dia 11, consegui uma nova (já que quem tem amigo, não morre pagão...) e já engatei os filmes restantes da Mostra, num final onde até apareceram filmes ruins, mas que um quarteto fez por onde simplesmente valer a pena os últimos 14 dias. Grandes filmes, senhores filmes... nossa, em êxtase por eles. Agora aqui, os comento de forma breve porém empolgado.

* A Separação:


Há 2 anos atrás Asghar Fahradi começou encantando a Alemanha com seu fascinante 'Procurando Elly', e de lá a fama desse novíssimo cineasta iraniano correu o mundo, comovendo cada lugar por onde passava. Cabe aos países agora (nós inclusive) importarmos seus primeiros 3 filmes, todos relativamente recentes. 'Elly' saiu do Festival de Berlim com o prêmio de direção para Fahradi e esse ano o diretor voltou ao Festival com esse novo trabalho que logo se configurou como o favorito do ano, não decepcionando e levando logo o Urso de Ouro. Mas o júri queria muito mais e deu também os prêmios de ator e atriz ao filme, representados por todo o elenco. Ou seja, o amor pelo filme era ainda maior do que se suponha, um amor mais que merecido.

Na trama (que ao menos pela segunda vemos, observamos que Fahradi parte sempre de algo banal "em tese"), de cara somos informados sobre a separação de Nader e Simin, casal que tem uma filha adolescente que discorda sobra uma possível viagem para outro país em busca da concretização dos seus sonhos. Nader não acredita nisso, enquanto Simin não vê outro futuro; além disso, o pai de Nader tem Alzheimer e necessita de cuidados, e para isso é contratada Razieh, que vai funcionar como uma espécie de acompanhante, enfermeira e doméstica na casa com a partida de Simin. Logo, toda essa estrutura virá abaixo quando um ato de violência for desferido contra Razieh, que está grávida e cujo marido não sabe que ela está trabalhando. Mentiras, segredos e opiniões contraditórias e volúveis farão parte da realidade desses 2 casais, e das demais pessoas que irão cercar o conflito gerado.

A estrutura dramática que Fahradi constroi mais uma vez é exemplar. Assim como em 'Procurando Elly', o filme é repleto de novas informações que a todo momento enriquecem e dão novo viés ao contexto mostrado, além de deixar tudo cada vez mais nebuloso dos pontos de vista ético e moral, acendendo discussões pertinentes. Não à toa um favorito antecipado ao Oscar de filme estrangeiro, não se engane que Fahradi está apenas falando de família aqui. Se você é iraniano, a política está entranhado em cada coisa que você faça, e um dos inúmeros talentos de Fahradi é falar de um microcosmo diminuto na superfície, e mergulhar na ótica do seu país de forma brilhante. Simplesmente genial.


NOTA: A+

* Caminho para o Nada:



Confessando aqui o que talvez seja um grande pecado: apenas ano passado, às vésperas do início do Festival de Veneza 2010, é que soube da existência de Monte Hellman. Tendo dirigido cerca de 13 filmes entre os anos 60 e 80, Hellman ficou mais de 15 anos sem dirigir nada até voltar aos curtas 5 anos atrás. Foi então levado a Itália ano passado para competir com esse filme, justamente no ano em que seu pupilo Quentin Tarantino foi presidente do júri. Como tio Tarantino idolatra a obra passada desse cineasta de quase 80 anos, esse homem que é considerado por muita gente como 'Papa do real cinema underground americano' saiu do Festival com um Prêmio Especial pela carreira. Ao assistir o filme, chegamos a conclusão que muita pressão deve ter feito Tarantino desistir de cnceder o Leão de Ouro a Hellman. Uma pena, porque 'Caminho para o Nada' é infinitamente superior a 'Um Lugar Qualquer', que sagrou-se vencedor.

Sacam 'Cidade dos Sonhos'? Pois a vibe é essa: um diretor obcecado com a adaptação para o cinema de um crime real que aconteceu na Carolina do Norte; uma blogueira que vendeu os direitos de seus escritos para Hollywood; uma atriz de quinta que se submete ao filme, ao diretor e aos poucos emerge dessa salada transformada; um investigador de uma seguradora que ronda a produção do tal filme. Junte isso ao crime em si, e as filmagens das cenas reais, e temos 3 linhas narrativas que misturam o tempo inteiro, criando fascínio a frente de nós. Como se trata do mesmo elenco representando várias versões de uma mesma situações, o jogo de espelhos da metaliguagem do filme enriquece gradativamente, e aos poucos nossa sanidade vai sendo colocada tão a prova quanto à das personagens.

A pressão sob a qual Tarantino sucumbiu com certeza seria bancada por David Lynch, já que o filme transpira situações 'lynchianas' a todo momento. Uma espécie de obra que não se explica e que sentimos a cada novo 'frame' como o bizarro pode conviver com a normalidade a todo tempo. Um elenco que entendeu a proposta do filme tem representado em Shannyn Sossamon a expressão máxima da entrega. Daqueles filmes que não irão demorar a se tornar 'cults', o filme é um 'neoclassico' instantâneo onde a cada nova virada por cima de sua estrutura de metalinguagem entendemos mais o desprezo por Hollywood nutrido por Monte Hellman. Ou por Mitchell Haven (é deliciosamente explícito o jogo das iniciais). Ou de ambos. Se deixe levar por imagens desconcertantes e compartilhe o prazer de uma experiência que não se consegue diariamente no cinema.


NOTA: A+

* Aqui é o Meu Lugar:



Da expectativa fenomenal que se formou em torno do encontro do diretor de 'Il Divo' e do astro americano vencedor de 2 merecidos Oscars, Cannes esse ano observou tal expectativa da forma mais escrota, como se estivessem decidindo que 'diante de tantos filmaços que vimos, chega de acharem que tudo é meravilhoso e vamos falar mal desse aqui'. Diante de um Sean Penn diferente do que imaginavam (mesmo que a bizarra imagem do astro já estivesse sendo divulgada bem antes da seleção para o Festival), a reação da imprensa e do juri foi ignorar. Com isso, perderam a chance de apreciar a contento um novo baile de direção de Sorrentino, um filme imune a defeitos.

Penn é Cheyenne, cantor de rock de sucesso nos anos 80 que hoje já não frequenta as paradas de sucesso e vive recluso numa mansão irlandesa. Ao lado da esposa (a grande Frances McDormand), Cheyenne não faz muita coisa a não ser visitar duas famílias de fãs seus e manter amizade com a irmã de um deles, tão excêntrica quanto ele. Ao tomar conhecimente da iminente morte do pai que ele não vê há 30 anos, o astro volta aos EUA, para o interior de sua família judia. E é durante o velório que ele é informado que seu pai teria achado o homem que o torturou no campo de concentração de Auschwitz. O que fazer mediante isso? Qual seria a função, a essa altura do campeonato, de tentar localizar esse homem? Cheyenne também não sabe as respostas, mas decide ir até ele pelas estradas americanas.

Um road-movie com imagens que remetem ao que de melhor Win Wenders já produziu, Sorrentino explora a atmosfera americana e extrai poesia de rodovias e cenários, sempre com o sarcasmo rasgado das frases que Penn profere. É graças ao roteiro conciso, à fotografia poderosa, à felicidade de encontrar mais um Sorrentino pleno de talento, que tudo que é menor é colocado de lado aos poucos pelo filme. Quando enfim percebemos como Sean Penn cresce e amadurece durante a projeção. Belíssimo.


NOTA: A+

* O Morro dos Ventos Uivantes:






Vejam a foto acima: este é Heathcliffe, quer voces queiram ou não. Não juntam o nome a pessoa porque Heathcliffe nunca foi retratado por um negro, embora provavelmente seja o que ele é. Tratado como um escravo pela família que o adotou, Heathcliffe cresceu observando a irmã de crianção Elizabeth. A diretora Andrea Arnold (dos incríveis 'Marcas da Vida' e 'Aquário') concebe a versão definitva do clássico de Emily Brönte. Sempre tratado com reverência e formalidade, o livro ganha aqui as nuances que Arnold disse sempre ter observado: a ligação daqueles personagens com o meio em que vivem, no caso ali as montanhas sem fim que os cercava; fazendo da natureza e da relação do homem com ela quase protagonistas, a diretora consegue como resultado seu melhor filme em 3.

A história é exatamente a mesma: após ser criado por uma família pouco abastada como filho, Heathcliffe logo percebe seu lugar quando o pai da família morre. O carinho que Elizabeth sentia por ele vai sendo diluído por tantos castigos que o irmão impinge a ele, e os anos passam. Heathcliffe foi embora, mas volta e encontra o amor de sua vida casado. Com posses, o rapaz vai tentar reconquistar a atenção de sua amada de forma pouco usual, e aos poucos eles vão saindo do torpor romântico e mergulhando na miséria de acusações e mágoas antigas.

Arnold sabe exatamente o que quer, e ao envolver toda a natureza nessa história de amor proibido clássica, obtém o resultado mais que perfeito, com um elenco de novatos simplesmente perfeito. Com a ajuda de uma
fotografia esplêndida. a diretora caputura imagens simplesmente da forma mais poética possível, e não demora a criar vínculo com ninguém mesmo que sua narrativa não seja exatamente um exemplo de reviravoltas e 'pseudo' ação. Na pungência de seu roteiro, Arnold acaba se aproximando do seus longas anteriores também nas imagens mais sensuais do Festival. Um filme imperdível.


NOTA: A+

* Amanhã Nunca Mais:


Escute um conselho de amigo, Lázaro: não aceite fazer nada por amizade. Não foi por nada além disso que ele, o fotógrafo Ricardo Della Rosa, o músico André Abujamra, e ainda Milhem Cortaz devem ter aceitado fazer a estreia de Tadeu Jungle na telona. Um mestre da propaganda, não aprendeu que uma coisa não é igual a outra, e se arrisca numa atividade completamente nova saindo completamente desfigurado.

Vemos aqui o médico anestesista Valter que tem uma missão bem simples pela frente, que é pegar o bolo de aniversário da filha e levar para a festinha. Mas valter tem um terrível problema: ele não consegue dizer 'não'. Então nessa levada, Valter vai quebrando o galho de todos, e sua esposa desejando a morte para ele, a hora que fosse.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 9:

Um dia que começou ruim e terminou pavoroso; filmes completamente descartáveis foram assistidos. Porque não fiquei em casa no sábado? Bem, tudo acontece por um motivo... e agora estou aqui, sem minha credencial. O "Dia 10" não existiu, me joguei na cama... mas vai que algo ainda muda? Por enquanto, estão aqui minhas últimas impressões sobre o Festival do Rio esse ano (e de quatro filmes que tentam concorrer ao Oscar de filme estrangeiro do ano que vem):

* A Guerra está Declarada:


É muito bom ver um filme corajoso e diferenciado sobre um assunto que todos já trataram (os americanos então...). Como tudo já foi dito, e sempre das formas mais piegas possíveis, quando vem uma lufada de novidade tudo é tratado como um 'grande acontecimento'. Vejam, o filme não é perfeito... mas observo a escolha da França para que ele seja seu representante entre os filmes estrangeiros que tentam uma vaga no Oscar do ano que vem das atitudes mais maduras e acertadas que eles tomaram ultimamente. Trata-se do segundo filme de alguém que não está sossegado, e que não vai parar por aqui.

No caso, um casal. Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm são roteiristas do filme, e apenas ela a produtora. Também ela assina sozinha a direção, mas como ambos são também os protagonistas do filme e um casal também na vida real, dificilmente acreditamos que a direção do filme não tenha passado em algum momento pela mão de Elkaïm, até porque o filme mostra uma pequena parte da vida deles. O encontro romântico de Roméo e Juliette, um casal a quem não restava nada a fazer que não se apaixonar perdidamente um pelo outro (por infinitos motivos que o filme mostra nos brilhantes 10 minutos iniciais). Logo, vem um bebê não planejado, e eles viram uma família da forma que dá. Felicidade é a palavra de ordem, até o choque máximo: Adam tem um câncer no cérebro. Como um casal jovem e bonito se porta diante de tal monstruosidade do destino? Como lidar com um filho de 3 anos que pode morrer a qualquer momento?

O filme é dramático quando não tem como deixar de ser (afinal, voces leram a trama?), mas o esforço hercúleo de Donzelli e Elkaïm em não deixar essa situação se dramatizar ao extremo valem muitos aplausos. E na medida do possível eles conseguem transformar o que o cinema americano venderia como "a morte em vida", como o amadurecimento de duas pessoas numa fuga para não enlouquecer. Não é a toa que a foto acima é o poster oficial do filme e sua maior representação fotográfica. Afinal, a dor sempre vai existir; o que muda é a forma com que cada um de nós lida com ela.


NOTA: B-

* O Abrigo:


Michael Shannon não começou sua carreira semana passada. Com mais de uma década de serviços prestados a indústria cinematográfica, seu rosto marcante e expressões precisas demoraram a encontrar eco em Hollywood. Mas de uns tempos para cá seu barco começou a remar mais forte, talvez graças a sua performance arrasadora em 'Possuídos' (ao lado de Ashley Judd), e logo veio a primeira indicação ao Oscar como o esquizofrênico de 'Foi Apenas um Sonho'. Outras certamente virão, e sua nova tentativa é a bordo desse drama apocalíptico dirigido por Jeff Nichols (que deve ser muito amigo de Shannon, tendo em vista que ele é o protagonista de seus 3 filmes).

O filme mostra a vida de Curtis, um pai de família honesto e trabalhador que está tendo uns sonhos mais que estranhos. Nuvens de tempestade pavorosas se formam no céu, uma chuva viscosa e de tom marrom cai do céu, e revoadas de pássaros sobrevoam sua casa: assim são os sonhos. Logo, Curtis começa a desconfiar que algo de ruim possa acontecer a sua cidade, e na tentativa de proteger a esposa e a filha, ele reativa um abrigo nuclear instalado em seu quintal, transformando sua vida numa paranoia crescente e sem saída, que pode destruir seu casamento e sua sanidade.

O filme é um 'tour de force' de Shannon, em ótima composição. A seu lado, Jessica Chastain (de 'A Árvore da Vida') também mantém o bom ano que vive. Já o filme não é muito imaginativo, além de ser travado e bastante lento. Segurando as pontas, acompanhamos o ótimo ator que protagoniza o longa na torcida que ele consiga momentos de ainda mais brilho nessa carreira ascendente.


NOTA: C+

* Beleza:


Candidato ao Oscar 2011 pela África do Sul. Vencedor da 'Queer Palm' no Festival de Cannes desse ano (o prêmio dado ao melhor filme de temática gay da mostra). Com essas duas responsabilidades nas costas, o diretor/roteirista Oliver Hermanus chega no circuito cinematográfico mundial querendo mostrar serviço. Não é que consegue? Se falta brilho e novidade a seu filme, não lhe falta garra e a certeza de estar fazendo o melhor possível, além de um grande ator como Deon Lotz protagonizando.

O filme mostra a vida pacata de François, pai de família com uma bem sucedida madeireira que esconde o que pra ele é um terrível segredo: ele é gay. Com a libido em polvorosa, François tem um grupo secreto de homens maduros e todos com "algo a perder" como ele, que se encontram de tempos em tempos para colocar seu desejo em dia. Ao colocar os olhos em cima do filho do melhor amigo, François enlouquece de tesão pelo rapaz e passa a criar armadilhas para encontra-lo e criar qualquer vínculo que seja com ele. Aos poucos, essa obsessão vai fazer com que esse homem perca todas as amarras e caia cada vez mais nas armadilhas que ele mesmo cria.

Graças a Lotz e sua expressão apreensiva e tensa, o filme se segura até o fim. Com uma trilha sonora pontual, adequada e muito interessante, 'Beleza' pode até não ter muitas chances na disputa do Oscar desse ano, mas não lhe falta a dignidade que muitas vezes o assunto custa a ter. Apesar do tema nada novo, o filme não aborrece e prende até o fim.


NOTA: B-

* Superclássico:


A Dinamarca acabou de ganhar o Oscar de filme estrangeiro (injustamente, já que 'Incêndios' e 'Kynodontas' dão 20 banhos em 'Um Mundo Melhor'), e volta a tentar concorrer da forma mais acertada possível, que é fugindo de qualquer maneira do vencedor passado. Com a certeza de que a vitória esse ano tira 80% de uma nova indicação tão rápido, os dinamarqueses decidiram apostar no oposto que mostraram esse ano, com essa comédia romântica divertida e leve, que poderia muito bem ter sido produzida na América.

O filme mostra o desespero de Christian (o ótimo Anders W. Berthelsen, de 'Italiano para Iniciantes') ao ver que sua mulher Anna (a bela Paprika Steen) pediu o divórcio e está de casamento marcado com um astro do futebol argentino. Como Anna agora mora na América do Sul (por também ser empresária do jogador), Christian vai com o filho Oskar (Jamie Morton, super expressivo) para a Argentina com a desculpa de assinar os papéis do divórcio, mas na verdade ele quer uma última chance de reconquistar a ex-mulher. Se metendo em confusões cada vez maiores num país que não é o seu, Christian vai perceber que nem sempre o que se quer é a melhor pedida.

Sem grandes pretensões, o filme agrada e faz rir com seu humor fácil e sua trama rapidamente esquecível. Fica aquela 1 hora e meia de diversão (com um ótimo ator a frente do elenco), mas toda vez que o filme tenta alçar um voo maior, o roteiro bloqueia suas intenções. Pra divertir, distrair e esquecer em seguida.


NOTA: C+

* Happy Happy:


A Noruega vem com essa produção de humor mais refinado a princípio, mas que acaba caindo em muitos lugares comuns durante seu desenrolar. O filme ganhou esse ano o prêmio do juri no Festival de Sundance desse ano, além do troféu de melhor ator no 'Oscar norueguês' para Henrik Rafelsen (o cara da foto acima). Ele faz parte de um quarteto principal muito afiado, que mostra 2 casais vizinhos interagindo cada vez mais.

Sigve e Elizabeth se mudam para a frente de Kaja e Eirik e passam a conviver uns com os outros. O filho de Sigve e Elisabeth é um menino negro adotado, que acaba sendo sutilmente escravizado pelo filho do outro casal (em cenas tão bizarras quanto engraçadas). Os pais dos meninos, que estão em conflito velado, acabam se envolvendo num swingue silencioso e o romance de Sigve e Kaja parece que irá engrenar a qualquer momento. É quando muitos segredos vem a tona, e o quarteto irá tomar as decisões que mudarão essas vidas definitivamente.

Um filme que poderia ser muito melhor do que acaba sendo, 'Happy Happy' perde muitas oportunidades de marcar cinematograficamente, já que seu humor ácido inicial vai dando lugar a algo mais convencional, cena a cena. Não impede, no entanto, de ser uma agradável surpresa (bem) vinda de um lugar muito frio.


NOTA: C+

sábado, 15 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 8:

Estou cansado, tipo muito. Mas como olho pra frente e ainda vejo coisas como o dia de hoje, a animação continua apesar de tudo. Afinal, tem 'Drive' na minha frente... como não soltar foguetes?

* Drive:

  
Sentem o cheiro de anos 80 no ar? Pois é... 'Drive' é um bicho oriundo em parte lá, mastigado em 2010 e jogado na nossa cara agora da forma mais explícita possível. O diretor Nicolas Winding Refn não começou ontem, nem na cadeira de diretor nem como provocador típico dinamarquês. Ao contrário do colega Lars Von Trier, Refn é polemista apenas do lado de lá da tela e adepto disso que descrevi: explosão de fúria na nossa cara, e cenas particularmente violentas em que 'tudo' é o universo retratado (como em seu furioso 'Pusher', conferido num Festival do Rio qualquer de uns 5 anos atrás, talvez...). Dizem que o prêmio de direção em Cannes desse ano foi um exagero; eu chamo de merecido. E como...


O filme segue um motorista sem nome vivido com brilho por Ryan Gosling. Ele é dublê de cenas de ação para o cinema de dia, e motorista para ladrões em fuga a noite; em tempo integral, é mecânico numa oficina de carros. Ao conhecer sua vizinha Irene e o pequeno Benicio, há uma conexão entre eles que há muito tempo esse homem procurava. Mas ao se envolver num assalto ao lado do marido de Irene que acabou de sair da cadeia, o motorista irá se envolver com o pior do submundo da California, com o foco apenas na bela garota por quem se apaixonou silenciosamente. 


O filme, como anunciei acima, é um híbrido. Imagens dos anos 80, figurinos idem e trilha sonora arrebatadora, mistura tudo num liquidificador potente com o fino da violência moderna, que somente Refn consegue fazer explícita e sutil ao mesmo tempo. No elenco, o destaque absoluto (além de Gosling) vai para o redivivo Albert Brooks, num papel que vai salvar sua carreira. Todas as luzes e neons, no entanto, vão para o talento de Refn que explode na tela a cada cena, sejam elas calmas ou nervosas. E no deslizar dos carros pelas ruas sujas de uma cidade implacável, que transforma um filme que tinha tudo para ser banal num dos melhores de 2011.




NOTA: A+

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 7:

Dia de cinema nacional. Dia de grandes filmes do cinema nacional. Dois deles irão estrear mês que veme ajudam a salvar um dos anos mais capengas do nosso cinema ao que me lembre. Dois grandes filmes, e um pequeno filme muito diferente ajudaram meu Festival a subir de nível. São eles:

* O Palhaço:


Quatro anos depois mobilizar a temporada com o melhor filme nacional do ano logo em sua estreia como diretor ('Feliz Natal'; um filmaço pouquíssimo visto que merece toda a atenção), Selton Mello mostra que não está pra brincadeira na nova cadeira de diretor e entrega um filme que talvez seja ainda mais maduro que sua estreia. Ciente de suas aptidões, Mello está sempre crescendo como ator, e esse ano resolveu mostrar um outro lado como realizador, mais afável e próximo ao grande público, não por isso diminuído em força dramática e identidade visual. 'O Palhaço' é (mais uma vez, hein Selton...) um dos grandes filmes nacionais do ano, e do Festival com muitas sobras.

Acompanhamos as desventuras da trupe do circo Esperança (como o Bar, do filme homônimo dos anos 80), um desses modestos espetáculos mambembes que viajam o Brasil há muitas décadas (e que Mello resolveu situar nos anos 80). Os donos são Benjamin e seu pai, no palco Pangaré e Puro Sangue, uma dupla de palhaços cuja versão mais jovem está em crise. Literalmente em busca de identidade, Benjamin não se encontra mais naquele ambiente onde cresceu e crê ter perdido a graça, embora no palco isso não se reflita. Prestes a abandonar o 'negócio de família', Benjamin e equipe passeiam pelo interior do Brasil (tal qual o clássico de Cacá Diegues, 'Bye Bye Brasil') levando diversão ligeira as comunidades menos abastadas.

Uma arte que está morrendo, grita o filme a todo tempo através das lentes de Adrian Teijido (aliás, a parte técnica do filme é inteira um desbunde). Com pressa o tempo todo, Mello conseguiu fazer um filme enxuto (tem apenas 80 minutos) e juntar o melhor da arte cômica no país de ontem hoje, em participações afetivas deliciosas e derramadas de talento. José Loredo, Ferrugem, Fabiana Karla, Moacyr Franco (simplesmente extraordinário), se juntam a um dos  elencos mais homogêneos de 2011, no qual brilham Paulo José, Alamo Facó, Erom Cordeiro, Teuda Bara, e muitos outros. Não percam essa divertida homenagem ao mundo da arte, que fazemos ou amamos. E mais uma vez, obrigado Selton.


NOTA: A+

* Corações Sujos:


 
Incrível como Vicente Amorim é um cineasta em evolução (aliás, como deveriam ser todos né?). Depois do delicado 'Caminho dos Sonhos' e do histórico 'Um Homem Bom', Amorim junta as duas coisas numa das produções mais interessantes do ano. Confesso que meu queixo caiu; não sei porque nutria uma implicância sem sentido pelo filme. Mas me peguei emocionadoem diversas cenas, e maravilhado em tantas outras. Nível técnico internacional e um roteiro quase perfeito, aliados a uma direção cheia de brilho, elevam o filme como outro dos melhores nacionais do ano.

A trama, que a princípio teria pouco a ver com nossa realidade, mostra uma comunidade japonesa observada logo no fim da Segunda Guerra Mundial. Sem acreditar na derrota do Japão (que consideram imbatível) um grupo de homens de uma aldeia de imigrantes decide partir para a ofensiva contra o próprio povo que difunde a derrota da pátria-mãe. Sem pensar nas consequências, um general dele reúne um 'exército' nessa vila e os transforma em carrascos, executando cada japonês considerado 'traidor', e que assim o são unicamente por acreditar na derrota (que era noticiada em rádio e jornal).

O único defeito do filme vem roteiro que deixa os poucos brasileiros mostrados no filme muito ao longe do banho de sangue que os japoneses promovem entre si, sumindo da produção e deixando um vácuo na trama. Tirando isso (e um tique do diretor Amorim em insistir num mesmo efeito fotográfio), a luz do filme é simplesmente impressionante, a trilha é das melhores coisas produzidas esse ano no Brasil, e o elenco japonês reunido é nunca menos que excelente. Ou seja, mais um grande filme com a nossa grife.


NOTA: A-

* Sudoeste:


Eduardo Nunes, não sei se te agradeço ou se bato na tua cabeça. Como se preparar para sua estreia na direção? Alguns comparam o filme a um parente de 'Lavoura Arcaica'; talvez a presença de Simone Spoladore em ambos ajude isso a acontecer. Ou será que o aspecto de 'estranho no ninho' das duas produções apenas faça todo o trabalho. Eu particularmente não achei muitas semelhanças, além da qualidade de ambos. Mas é fato que 'Sudoeste' precisa de outro tempo para ser analisado, e não apenas 2 dias. Aqui estou eu, falando do filme, o revendo na memória... e nesse momento, tenho um belíssimo filme nacional na minha frente. Mas sem chegar perto da perfeição.

O filme acompanha um dia na vida de Clarice. Ou melhor, o dia da vida de Clarice. O único. Explico: Clarice é um fenômeno. Junto com o publico, aos poucos percebe que o dia do seu nascimento é também o dia da sua infância, o dia de sua juventude, o dia da sua gravidez, o dia da sua velhice, o dia de sua morte. Tudo num único dia, extraordinário dia. Junto com ela também, observamos a perplexidade dos que a veem como algo diferente e poético. Talvez os olhos das pessoas que passam por Clarice sejam os mesmos olhos do público que analisa 'Sudoeste': sem perceber tudo que está na sua frente, mas literalmente inebriado com tamanho encanto.

Mauro Pinheiro Jr. tinha que ser canonizado ainda nessa edição do Festival. Após arrebatar meio mundo com as imagens de 'Abismo Prateado', agora vem com essa aula de luz e técnica sob a batuta de Nunes, que estreia de maneira corajosa e arrebatadora. O ritmo lento ao extremo, a poesia que praticamente não dá vazão a um roteiro, e as interpretações quase contemplativas ajudam a estranheza do todo, mas uma coisa é certa: a coragem de Eduardo Nunes é do tamanho do mundo, e somente ela já bastaria para aplaudirmos esse projeto diferente e excepcional.


NOTA: B+

* A Hora e a Vez de Augusto Matraga:


Vinicius Coimbra é mais um cineasta oriundo da TV Globo a alcançar os cinemas. Já começa marcando pontos por não escolher comédias enlatadas para tentar mostrar serviço. Pelo contrário, vai numa das fontes mais difíceis de prosa para dar vazão às suas intenções iniciais como realizador de cinema; Guimarães Rosa foi um gênio, porém não é fácil nem aos iniciados, imagina a um estreante que escolheu se manter fiel a linguagem do autor. Se não consegue imprimir tão apurado capricho cinematográfico quanto seus colegas na competição da Premiére Brasil, tampouco pode ser livre de elogios pela escalação de elenco primorosa, pela escolha da obra em si e por cooptar alguém tão capaz quanto Lula Carvalho para iluminar seu longa.

Na tela, Augusto Matraga é uma espécie de bandoleiro do sertão nordestino que cai em emboscada organizado pelo Major Consilva e cai (literalmente) em desgraça, sendo arremessado em um desfiladeiro e dado como morto. Sua esposa vai viver com um galante cortês, e a região que era sua passa a ser vilanizada pelo tal Major. Mas Augusto não morreu, e seu corpo é resgatado por um casal que o protege e cuida dele por muitos anos, até a chegada de Joãozinho Bem-Bem pelo lugarejo onde vivem. De fama (e folha) corrida repleta de crimes, Bem-Bem é tratado como um deus pelo novo Augusto, hoje um homem ligado a religião e distante do universo do crime. Mas a influência desse grupo poderá ser fatal para a recuperação espiritual de Augusto, e a tentação de consertar o passado fica cada vez mais forte.

Apesar de toda a maravilhosa prosa de Rosa e do estupendo elenco (o que dizer de um grupo de atores que junta João Miguel, Irandhir Costa, José Wilker e Chico Anysio em desempenhos espetaculares?), falta uma forma mais trabalhada ao filme. Com uma montagem apenas eficiente, o filme parece não ter ficado totalmente pronto ainda, e precisar ainda ser burilado tecnicamente. O projeto é ótimo e Coimbra conseguiu todas as armas eficazes para sua estreia, só parece que no fim das contas o filme é exatamente isso: uma estreia. De muita qualidade, mas uma estreia.


NOTA: B-

* Espiral:


Paulo Pons apareceu na minha frente a primeira vez há alguns anos atrás, com um filmaço chamado 'Vingança'. Filmando um thriller que tinha tudo para ser banal e comum, Pons deu tons brasileiros e uma cara toda particular ao filme, sendo uma bem-vinda lufada no cinema de gênero que pouquíssimo é feito no país (e com qualidade sempre abaixo da duvidosa). Finalmente vemos Pons de volta a tela, e se o resultado fica longe do impacto de sua estreia, ninguém pode negar como o diretor sem empenhou em realizar um filme o mais interessante possível, inclusive tecnicamente.

Será que consigo montar uma sinopse aqui dele? Bem, quase impossível... mas vamos a uma pincelada, que seja: o filme mostra 7 estranhos que se encontram numa mansão, e chegam pouco a pouco. João, Joana, Maria, Ana, Marcos, Zeca e Clarice não se conhecem e não sabem porque foram parar ali; os diálogos entre eles parece que não mudam muito essa situação, e aos poucos a situação vai ficando cada vez mais absurda. Até que um corpo surge na casa. Quem é aquele homem? Quem são essas 7 pessoas? O que todos fazem ali, e qual a relação entre eles?

As inspirações parecem ter sido muitas, e de cara identificamos o Buñuel de 'O Anjo Exterminador'; mais tarde, com todas as revelações na mesa, um importante autor vem a tona, de forma bem explícita (mas que deixaremos aqui sem citação, por conta do gigantesco spoiler que seria). De qualquer forma, o filme ainda lembra 'Timecode', filme onde Mike Figgis há mais de uma década já imaginava várias situações acontecendo ao mesmo tempo, recortando a tela para tal em até 4 partes. É bacana? É. Instigante? Sem dúvida. Mas precisaria de mais azeite e diálogos um pouco melhores para chegar a um resultado superior. No elenco, o destaque para Nelson Freitas e João Sabiá, os únicos repletos da naturalidade que o filme exigia. Independente de qualquer que seja a análise final, o bom é perceber que Pons não dormiu em serviço e revirou as expectativas que tínhamos com ele, tentando mais uma vez remar contra a maré num ambiente cada vez mais viciado quanto o cinema.


NOTA: C+

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 6 (Parte II):

Mais um daqueles dias onde me enrolei e aí as críticas tiveram que ser divididas em 2 partes. Espero que voces não estejam achando muito confuso (hehehehe), mas faço de tudo para manter a galera atualizada desse Festival que é a minha vida. Bem, vamos mais a alguns escritos:

* We Need to Talk about Kevin:






Bem que falaram no Festival de Cannes desse ano, mas é sempre preciso ver pra crer. Não se sabe exatamente como, mas a adaptação do famoso best-seller 'Precisamos Falar Sobre o Kevin' não saiu a contento. Entendam: não chamo de 'ruim', não chamo de 'desperdício de tempo', ou coisas parecidas. Pelo contrário, pode ser que com o tempo eu absorva o filme de forma diferente, mais parecido com o público generalizado que aplaudiu ao fim da sessão do filme hoje (em tempo: é um filme bem fácil de gostar, do tipo que o público médio se sentirá orgulhoso, já que o filme "é denso e difícil". Sinceramente? Nem uma coisa nem outra. Embora eu ache que o filme tenta ser ambas.

A história, a essa altura, já está na boca do povo: Eva e o filho Kevin nunca tiveram lá uma relação normal. Ele desde bebê repele a mãe, que com o tempo entendeu a mensagem e se afastou do filho; por outro lado, parece que Eva não era lá muito preparada pra tal função, e pode ter passado essa insegurança ao filho ainda no colo. O certo é que hoje temos uma tragédia qualquer obviamente cometida por Kevin, e o filme mostra o passo a passo familiar, da gravidez até a tal tragédia, indo e vindo no tempo, para mostrar talvez o que possa ter dado errado nessa relação.

O filme é bem explícito em suas metáforas, e praticamente é vermelho (por motivos óbvios desde o início). Essa obviedade da direção/roteiro deixa escoar momentos que poderiam ser mais sutis, mas o vermelho persegue o filme, e vice-versa. De qualquer forma, o filme não é mal dirigido, e tem soluções visuais muito boas. Menos bem sucedido é o roteiro, quase sempre muito mastigado ao construir essa relação interfamiliar. Tilda Swinton está muito bem, mas ainda acho que sua personagem precisava de mais limpeza do roteiro, ou maior clareza... do jeito que ficou, por algumas vezes parece apenas uma mulher atônita e alheia; John C. Reilly tem pouquíssimo a fazer; e o estreante Ezra Miller é apenas satisfatório. Com uma situação tão evidentemente explosiva, esperava-se que a diretora Lynne Ramsay tivesse em dias mais inpirados. Mas mesmo recorrendo a obviedades, não dá pra dizer que é um filme ruim. Só poderia ser bem melhor.


NOTA: B-

* A Doação:

 
Que ótima atriz essa Elise Guilbault. É das costas dela que veem todo o interesse em torno desse canadense que seria bem pior com outra atriz, possivelmente. Ao diretor/roteirista Bérnard Émond deve caber a escolha dessa atriz sensível e bastante delicada, que tem um papel nada difícil (verdade seja dita), mas com elegância e talento transforma o longa.

A trama mostra um médico adoentado que precisa tirar férias e também tratar da própria saude, e para tanto recebe a ajuda de uma mulher mais jovem que vem da capital para cidadezinha onde ele mora ocupar seu lugar durante esse tempo. O trabalho é relativamente complexo, pois o 'modus operandi' do senhor é delicado: ele gosta de visitar os pacientes de casa em casa, e mesmo no hospital onde dá plantão, é o mais próximo possível, principalmente com velhinhos e doentes graves. A essa mulher, caberá repetir esse passo a passo. Mas aos poucos ela impõe sua cara no projeto, quando o senhor demonstra estar ainda mais gravemente enfermo do que aparentava.

O talento de Guilbault é primordial para embarcarmos numa narrativa quase fria e distanciada, de ritmo lento e contido. O lance é o seguinte: se liguem nela e esqueçam as partes mais arrastadas; conhecer um novo talento é sempre muito bom.


NOTA: C+

* A Tentação:

 
Todo Festival temum filminho fuleiro, das daqueles que fedem mais que cheiram. Não exatamente 'o pior filme' exibido (no meu caso, ainda sigo com 'Ausente'), mas filmes que nem precisariam ser feitos, quanto mais assistidos. Ainda descubro que esse filme foi semi-badalado em Sundance esse ano. Cruz credo, hein meu povo... tá faltando motivo pra badalar. E o erro de 'casting'? Charlie Hunnam de protagonista/anti-herói romântico de qualquer coisa? Liv Tyler de ex-prostituta que virou camareira de hotel? Patrick Wilson de pastor evangélico? Tá puxado...

A trama é uma pobreza (e ainda parece "inspirada" de 'Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios') sem fim. Gavin é um gerente de hotel que um dia resolve se matar, sem mais nem menos. O pocial Hollis (Terrence Howard, se salvando do desastre) tem a missão de tira-lo do alto prédio de onde ele pretende se jogar, mas para isso terá de ouvir a história de Gavin, que inclui a paixão por uma camareira do hotel onde ele trabalha, casada com um pastor evangélico. O próprio Hollis está no meio de uma crise pessoal (acaba de descobrir que a esposa lhe deu dois filhos, mesmo sendo estéril), e as vidas de ambos vão se cruzar em recordações e relatos.

Chaaaaaato... como eu disse, não é intragável. Mas é tudo de uma preguiça tão grande, filmado tão sem ritmo (quem é Matthew Chapman???), cheio de diálogos tão profundos quanto um pires, e atuações totalmente no piloto automático, que a gente fica prostrado como os personagens, sem ação ou vida. São Howard é o único a se preocupar com o todo, e passa longe da lista de mortos e feridos.


NOTA: D-

* Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto:


Taí, um filminho bem simpático. Ainda que o protagonista vez por outro tente por tudo a perder pois é tão derrotista que passamos anos importar cada vez menos com ele, o filme tem diálogos muito espertos e diverte de verdade, com uma interpretação muito boa de Emilio Disi, o senhorzinho protagonista.

Ele chama Ernesto, um cara que nunca fez nada na vida, apenas foi levado pelos acontecimentos a chegar na mediocridade sem fim que está hoje. Casado com uma cabelereira e vivendo se arrastando por aí, nunca fez nada demais na vida, e o pior, nem tinha planos para isso. Agora com mais de 60 anos, encontra num bar um cara que lhe concede um desejo: voltar a qualquer ano de sua vida, e em troca ele receberia 1 milhão de dólares para passar 10 anos afastado vivendo o período escolhido. O que o tal cara ganharia em troca? Diversão. Depois de ser atingido 2 vezes por um raio, o tal sujeito virou uma espécie de 'mago do mal', e concede esses desejos a seres como Ernesto, para poder ve-los se ferrar duplamente. O pobre, achando que tirou a sorte grande, volta no tempo e percebe que muitas regras não lhe foram explicadas, e que as coisas podem ficar ainda piores do que já estão.

Narrado pelo autor do conto que deu origem ao filme, o filme foi das poucas comédias que assisti até agora no Festival, e valeu muito a pena. Poderia ser ainda melhor se o protagonista fosse menos comodista e tentasse só um pouco fazer as coisas valerem a pena. Do jeito que ficou, é uma comédia sem compromisso, de diálogos ágeis e bem inteligentes, e que garante 1 h e 40 de diversão genuína.


NOTA: C+

* O Caçador:


Willem Dafoe veio ao Festival do Rio ao lado do diretor Abel Ferrara para promover o novo longa '4:44', que acaba de ser lançado mundialmente no Festival de Veneza. O filme era dos mais aguardados do Festival, e agora parece que terá sua exibição cancelada por conta da cópia ruim que veio até a mostra. Resumo: Ferrara ganhou férias na cidade maravilhosa (e nublada), e Dafoe teve que acabar divulgando outro longa que também veio protagonizado por ele. Ingrata tarefa a de divulgaralgo ruim, né Dafoe? Difícil imaginar que o filme de Ferrara fosse menos digno que esse.

O filme mostra uma espécie de caçador de recompensas ao redor de serviço pelo mundo, que é contratado na primeira cena para ir a Tasmânia porque ouviu-se falar que o lendário tigre de lá não estivesse extinto, e que um último exemplar rondaria as montanhas geladas da região. Parte o camarada para os confins, e o que acontece? O de sempre. Uma mulher solitária para se apaixonar, crianças adoráveis para adota-lo como pai, arrumar confusão com os locais que não querem sua região explorada e depredada, e o tal encontro com o ser mítico... que pode ocorrer ou não.

Ao menos a ridícula mensagem de 'ame a natureza' é deixada para trás nos últimos minutos. Não que eu seja a favor de desmatamento ou destruição da fauna mundial, o discurso empregado no filme é que caminhava a passos largos rumo ao brega. Felizmente desse mal o filme foge... Dafoe, é o grande ator de sempre e não decepciona; Frances O'Connor e Sam Neill são um 'grande nada' em cena, pra compensar. Com um ritmo bem lento, pouco vale a pena no filme além do talento sem fim de um ator que escorrega bem mais que acerta, mas que não conseguimos nunca deixar de admirar.


NOTA: D+

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 6:

Dia que começa com furo do Festival você já tem que ficar com pé atrás, né? Pois a cabine de '4:44' que estava marcadíssima não rolou, e ainda há o perigo do filme nem vir mais para o Festival! Medo perde... o dia (cinematograficamente falando) foi bem bom, no entanto... tivemos afinal a segunda nota máxima do Festival. Sabem qual é? Tentem adivinhar... hehehehehehehe...

* Abismo Prateado:


Expectativa a milhão ao entrar na noite de ontem no Odeon, afinal não é todo dia que vimos um filme novo de Karim Ainouz (que muito dizem ser meu sósia; não acho tanto...). Na tela, Alessandra Negrini é Violeta, uma mulher de quase 40 anos, muito bem casado e bem resolvida, com um filho de 14 e que acaba de comprar seu apartamento. É uma dentista competente e moradora da bela Copacabana, no Rio de Janeiro. Prosaico, né? Apesar de tudo, o mundo de Violeta irá ruir sem que ela perceba... e através de uma mensagem de voz no celular, Djalma anuncia que vai deixa-la. Que não irá voltar mais. E que o amor acabou. Com clareza espantosa. A clareza que falta a Violeta, que sai pela cidade sem chão, rumo ou perspectiva. Quer ir a Porto Alegre encontrar o marido (que é piloto), quer ficar sozinha num hotel, quer mostrar que está na pista de uma boate, quer tentar entender tudo enquanto toma um sorvete na orla, observa outras pessoas que passam por ela tentando buscar qualquer resquício de compreensão do mundo. A jornada é longa para alguém que acabou de levar uma paulada.

Tecnicamente é mais um espetáculo de Ainouz, com fotografia do cada vez mais excelente Mauro Pinheiro Jr., montagem estupenda, ou seja, a competência explícita do grupo que Ainouz sempre aglutina. Já o roteiro (feito sob encomenda para uma espécie de série de homenagens a Chico Buarque, tendo em vista que o filme é uma livre adaptação de 'Olhos nos Olhos') não segue a excelência dos trabalhos superlativos do diretor, e Ainouz tenta transformar o que não é explícito em espetáculo; consegue. Os primeiros 20 minutos do filme escorregam na vida de classe média de Violeta; quando a mesma sai desarvorada, o filme ganha pontos essenciais. E acaba mostrando mais uma vez a enorme quantidade de talento de um diretor que não cansa de demonstra-lo, dessa vez numa tarefa hercúlea e recompensada no belo amanhecer de Violeta.


NOTA: B+

* Os Crimes de Snowtown:



A face do mal se esconde nos lugares exatamente onde se espera. No filme mais tenso do Festival do Rio 2011, vemos que a fuga de uma situação dramática pode levar a situações ainda mais infelizes, e criar monstros pode ser bem mais fácil do que se imagina. Em mais uma estreia que o Festival tem o prazer de apresentar, Justin Kurzel sai do ostracismo na Austrália local para o mundo do cinema e chega fazendo barulho. Já comparado ao recente 'Reino Animal' pela nacionalidade e visceralidade, a qualidade de ambos também é o diferencial. 

Jamie e seus 2 irmãos menores são vítimas de um pedófilo que mora do outro lado da rua. Revoltada, sua mãe conclama a vizinhança e reuniões a respeito do tema começam a acontecer na sua casa, quando o tal pedófilo inclusive é rechaçado de forma tão violenta que é obrigado a ir embora do bairro. Até aí tudo bem, mas nesse momento a cobra já se aproximou. O nome do animal? John Bunting, espécie de lider nato da localidade e que parece um alento na vida de Elizabeth, a mãe dos meninos. Logo o homem se tornou uma espécie de pai postiço das crianças, e da forma mais traiçoeira possível revela pouco a pouco sua real face psicopata ao atormentado Jamie, que se vê cada vez mais envolvido nas "atividades" nada ortodoxas de John.

Um estudo sobre a psicopatia latente em todos nós, o filme é uma aula de precisão. Fotografia, montagem, trilha sonora (talvez a melhor da mostra), um elenco fora de série, com destaque absoluto para Daniel Henshall, um absurdo de assustador sem mover nenhum músculo da face. Dono de imagens estarrecedoras e talvez o filme mais tenso exibido em todos esses dias, 'Snowtown' é um filme mais que obrigatório. É de fato um dos melhores do ano, dentro e fora do Festival.


NOTA: A+


 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 5:

Sei lá como mas to conseguindo escrever assim que vi os filmes depois de um dia cheio, onde estava na porta do cinema as 11 pra garantir o ingresso de 'O Cavalo de Turim'. Aqui, as críticas dos filmes que vi hoje, num dia  muito bacana, inclusive para o nosso cinema.

* Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios:




Mais uma vez, Beto Brant e seu parceiro Renato Ciasca não decepcionam e entregam uma obra poderosa e cheia de símbolos oriundos da cabeça de Marçal Aquino, mais uma vez autor do livro que deu origem ao filme. O que é mais tentador, a fé ou o desejo? Tentação da fé, alguém pode duvidar que isso exista... mas o filme nos coloca frente a frente a ela; a loucura pode ser a saída para uma paixão avassaladora? Tudo pode acontecer quando Brant e Ciasca traduzem o universo cada vez mais rico que Aquino propõe. Com imagens simplesmente arrebatadoras do alto Amazonas, em fotografia inspirada.

O filme mostra o triângulo amoroso formado entre o fotógrafo Cauby, a misteriosa Lavinia e o pastor Ernani. Nenhum dos 3 pertence aquela paisagem amazônica, e por motivos diferentes foram parar ali. O encontro de Cauby com a esposa de Ernani é arrebatador, e uma paixão furiosa nasce daí. O envolvimento é inevitável (em cenas mais que poderosas de sexo intenso entre Camila Pitanga e Gustavo Machado; a morena também tem cenas fortes com Zecarlos Machado), e o casal passa a viver esse amor sem pensar no amanhã ou nos perigos da região onde o filme se passa, onde qualquer um pode desaparecer sem deixar vestígio.

O trio está muito bem, principalmente Pitanga que se entrega por inteiro; mas é a participação de Gero Camilo que, numa belíssima composição, tanto chama a atenção como o patrão de Gustavo, o homossexual Viktor Lawrence. O roteiro do filme é onde há um escorregão, com passagens do personagem de Ernani bastante mal explicadas (sem spoilers) e uma relação dos personagens também muito rasa com o desmatamento da região onde vivem, e as consequências que isso terão a frente na trama. Mas o filme é um autêntico Brant/Ciasca, o que por si só já mais que vale a conferida. É a prova de que nosso cinema está melhor do que imaginávamos, com essa dupla de autores que nunca nos deixa na mão.


NOTA: B+

* Post Mortem: 


Como é bom reencontrar Pablo Larraín. Diretor de um dos filmes mais incríveis que vi há 2 anos atrás ('Tony Manero'), o diretor chega ao Festival do Rio desse ano não apenas com seu novo longa como diretor que concorreu em Veneza ano passado, como também com um novo como produtor de um que concorreu em Veneza esse ano ('4:44'). Ainda não vi o segundo, mas o primeiro já foi uma das coisas mais impressionantes que vi nesse Festival. Mesmo sem conseguir repetir o êxito narrativo do seu filme anterior, Larraín mais uma vez está mostrando um grande personagem se desfazendo na nossa frente, mais uma vez interpretado pelo grande Alfredo Castro.

Mario trabalho no necrotério da cidade do Chile durante os últimos dias que precedem o golpe que o presidente Salvador Allende sofreu em 73. Apesar de ser um homem muito introspectivo, Mario é apaixonado por uma vizinha que é dançarina de um cabaret burlesco e observa seu dia a dia com devoção. Mas quando o golpe militar explode, Nancy desaparece assim que Mario descobre sua ligação com um grupo de revolucionários. A partir desse momento, a relação entre Mario e Nancy evolui para algo cada vez mais doentio, enquanto o mundo desmorona ao redor desse homem comum que irá ao limite da sanidade.

O mais impressionante no talento de Larraín (até agora) é como ele consegue usar a década de 70 do seu país (evidentemente explosiva) como matéria-prima para metáforas cada vez mais complexas de uma realidade monstruosa. O personagem de Castro entra numa espiral sombria que não tem volta, devido também ao seu trabalho num lugar onde ele literalmente vê de tudo (mesmo!). Sem contar spoilers mais uma vez, digamos que o personagem acaba estando num momento crucial da história, enquanto Larraín deixa mais uma vez sua câmera captar momentos de impressionante beleza cinematográfica. Com um final de plano estático simplesmente arrebatador, o filme fica na memória durante muito tempo e torna a carreira de Larraín cada vez mais relevante no cinema atual.


NOTA: B+

* O Cavalo de Turim:


Difícil é assistir esse aqui e depois sair pra ver qualquer outro filme. Talvez o filme com as mais belas imagens do Festival (dificilmente alguém tira dessa fotografia o título de melhor da maratona), a produção ganhou esse ano o Grande Prêmio do Juri no Festival de Berlim e marca minha estreia na filmografia de Bela Tárr. Húngaro de nascimento, esse moço de 56 anos tem apenas tem apenas 11 filmes no currículo em mais de 30 anos de carreira (sendo que um deles é um documentário), e nunca teve nenhum de seus filmes lançados no Brasil. O mais marcante de todos é 'O Tango de Satã', literalmente um "filmaço" de 7 horas e meia (!!!). Tirando por 'O Cavalo de Turim', dá pra perceber o porque da ausência dele no circuito: de difícil compreensão, geralmente com pouquíssimos diálogos e repleto de metáforas, sua filmografia é objeto de culto por cinéfilos do mundo todo, e agora também entendo os motivos. 

A situação é simples: um senhor e sua filha vivem numa fazenda tendo apenas um cavalo e a ventania constante como companhia. Quando o cavalo em questão começa a não obedecer as ordens de ambos e se recusa a comer e ir a cidade para que ambos possam continuar sua rotina (e bota rotina nisso), se instaura um problema na velha casa onde vivem. Um problema que aos poucos começa a criar um estranho reflexo sobre eles. E só. 

Ainda dei uma enfeitada no pavão dessa sinopse, que na verdade é bem livre e ainda menos abrangente. Tárr partiu de uma espécie de lenda que cerca o filósofo Frederic Nietszche, que em certo teria visto um cavalo levar uma surra de chicote das mãos de seu dono. Compungido, o filósofo teria se abraçado ao cavalo para partilhar a dor e também impedir que aquela situação se extendesse. Como todos sabem, Nietszche emudeceu e a essa história tem sido atribuída a essa situação que ele teria vivido. Munido de tal acontecimento, Tárr construiu essa belíssima e difícil alegoria em preto e branco e com quase 2 horas e meia (que parecem as tais 7 de 'Tango...'), mas se voces deixarem passar os preconceitos e embarcarem nessa viagem literal de sentidos e emoções, podem voltar recompensados com uma experiência única. 


NOTA: A-

* Miss Bala:

  
Veem esse momento acima? É o grande dia da vida de Laura Guerrero, seu grande sonho realizado. Não se preocupem, isso não é spoiler... pra chegar aí (e se chegar), Laura teve que passar por tudo, literalmente. Fugir de um tiroteio numa casa noturna, ser sequestrada por um cartel internacional de tráfico de drogas, ver uma amiga desaparecer, acompanhar o cárcere do pai e do irmão, e muito mais. Tudo isso porque seu sonho era ganhar o concurso de Miss Baja California e se tornar nacionalmente conhecida. Mas no México do filme, tudo tem um preço... a maioria deles bem caros.

Escolhido para representar a comunidade mexicana na próxima disputa do Oscar de filme estrangeiro, essa foi uma aposta ousada do país, ao mesmo tempo que reflete o sucesso que o filme fez no último Festival de Cannes, onde passou em caráter 'hors-concours'. Com bom e surpreendente ritmo, e um elenco muito bem encaixado, o filme nunca ousa demais, ao mesmo tempo que será diversão garantida para ambos os grupos, tanto os de cinéfilos inveterados que procuram ousadias temáticas nas mais diferentes cinematografias, quanto o do público em geral, que irá torcer e se assustar junto com Laura.

Contra o filme, minha opinião pessoal: não consigo me aproximar de filmes cujo protagonista escolha tantas opções erradas, repetidas vezes. Laura, com sua eterna cara de 'acabei de cair no meio dessa lambança', foi me irritando gradativamente e fui torcendo cada vez mais para que ela levasse uma saraivada de tiros e acabasse com a tormenta. Um bom sinal: se um filme mexe tanto assim com você, qualidade não lhe falta.


NOTA: C+

* Paz, Amor e Muito Mais:



Olhem essa imagem. Jane Fonda. Vencedora de 2 Oscars. Militante política nos anos 70. Abandonou o cinema e por quase 20 anos ficou reclusa. Agora, ela voltou a ativa para fazer coisas como essa, a imagem da decadência. Um festival de provas vivas dessa afirmação, o filme já parte de Bruce Beresford, diretor somente de 'Conduzindo Miss Daisy', chegando cada vez mais próximo do fundo do poço (ele tem outro filme no Festival, 'O Ultimo Dançarino de Mao', que eu duvido ser pior que esse); Rosanna Arquette, numas 3 cenas, sempre fazendo figuração; Kyle Maclachlan, que nunca foi grande coisa além de muso de David Lynch (e até essa fase passou há muito tempo), mas aqui se resume quase a objeto cênico; Catherine Keener, musa do cinema indie, perdida aqui fazendo um personagem que caberia a qualquer outra atriz; e a própria Fonda.


O filme mostra essa senhora militante política (podia ser menos óbvia, hein Fonda?) que recebe a visita da filha depois de 20 anos afastada. Ela trás junto a ela os netos que a senhora ainda não conhece e, em processo de separação, acaba se apaixonando na cidadezinha onde a mãe mora. Os filhos, também. E tudo vai ficando cada vez mais 'linduuuuuuuu'... e muito chato, batido e pobre. 


Não se sabe de onde saiu tanta falta de imaginação e desperdício de tempo e dinheiro, mais a montagem pavorosa, os figurinos tétricos e os personagens rasos e que não respeitam nem suas pobres convicções dão uma vaga ideia dos motivos pelo qual somente a simpatia pelo grupo de atores faz com que tudo não seja encarado como tortura chinesa. E ok, eu acabei de ver 'Martha Marcy May Marlene' e não quero queimar o filme de Elizabeth Olsen tão rápido assim.




NOTA: D-
 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 4:

Correria. Ipanema, filmes trocados, Odeon, Centro, Copacabana, textos, compras... ontem o dia foi puxado (como diz Fernando Átila). Mas compensou porque assisti o melhor filme do Festival até agora, e de fato um dos que vão concorrer ao meu 'Premio Ghost World do Festival do Rio' (hehehehehe). Vamos a eles.

* Weekend:


Bem, começando: esse é o melhor filme visto na Mostra Mundo Gay do Festival do Rio. Desse ano. De todos os anos. Continuando? Esse é um dos melhores filmes gays que já vi na vida, e com certeza o mais honesto, sincero e verossímel de todos. O que mais se aproxima do universo que está aí e as pessoas fingem não ver, o mais romântico também... mas muito realista e de grande qualidade. O diretor/roteirista Andrew Haigh está em seu segundo longa metragem, e consegue o que quase ninguém conseguiu até hoje: mostrar um casal gay verdadeiro, com atores e situações incrivelmente reais.

Russell é um solteiro, e tem muitos problemas em aceitar sua homossexualidade. Seus amigos são heteros, ele não é assumido, mas anda por aí pegando tudo e todos (conforme vemos bem lá pra frente do filme), mesmo se sentindo extremamente só. Numa noite após visitar o melhor amigo, Russell vai a boate e se encanta com um rapaz, que parece não querer nada com ele. Após ficar com outro já completamente bêbado, Russell acorda na cama de casa ao lado de Glen, o rapaz que ele inicialmente queria, um gay assumidíssimo e que viva tudo muito intensamente. E a partir desse encontro (que ele nem lembra direito como se desenrolou), Russell e Glen vão viver o tal 'weekend' mais intenso de ambos em muito tempo. Revirando os respectivos passados e fazendo planos para um futuro que está em cima, o casal precisa decidir o que quer daqui pra frente, e isso inclui um ao outro.

Fala sério, quem nunca viveu algo tão intenso em tão pouco tempo assim? Sem nunca esconder que a inspiração está na dupla de obras-primas de Richard Linklater ('Antes do Amanhecer/Por do Sol'), o filme capta um curto espaço de tempo de pessoas que se apaixonam e não sabem se vão ou se ficam. Sem contar nada além disso, deixo todo o prazer de assistir a voces, leitores... e não se enganem, o prazer é muito. E que venha o resto do Festival, porque 'Weekend' está na dianteira como o melhor filme entre todos os 29 que já assisti até agora.


NOTA: A+

* A Novela das 8:


Guardem essa imagem: Claudia Ohana dando show na pista de dança, ou melhor, Claudia Ohana. Ela é pura humanidade no filme de estreia de Odilon Rocha. Fixem nisso (e em outro detalhe, uma virada espantosa da trama), e só. O filme de Rocha tem muitos mais altos que baixos, o que é sempre uma pena em se tratando de filme nacional. E ainda deixa a pergunta: porque um filme com uma pegada tão pop (negativamente falando) está competindo num festival de cinema, quando o filme é apenas pretensão?

O filme mostra a fuga de duas amigas, Dora e Amanda, de São Paulo para o Rio de Janeiro durante o ano de 1978, após um cara morrer durante o ato sexual com a segunda (que é garota de programa). Elas roubam os muitos dólares que o cara carregava e fogem para uma cidade que é o sonho de uma e o pesadelo da outra. Amanda ama 'Dancin' Days' e vem para a cidade maravilhosa com o intuito de viver tudo o que a novela mostra e vende; Dora tem um passado como presa política e fugiu daqui deixando seu grande amor pra trás e um filho que nasceu desse sentimento. Ao chegar aqui ambas irão conhecer outros personagens, como João Paulo, o filho de um médico famoso que acaba de morrer e tem uma vida pela metade, apesar de uma garantia de emprego na ONU. Ao conhecer essas mulheres e 'outro lado' da vida delas, João Paulo vai também mudar a sua.

Bem, o roteiro... repleto de clichês, frases de para-choque de caminhão, personagens que surgem e somem, personagens citados que não dão as caras, tudo muito raso e fuleiro. O elenco, é triste também: tirando Ohana, quase nada é bem dirigido (sim, os atores não estão ruins; estão mal direcionados mesmo). Cheio de closes para esconder a cidade (porque nada mais é como nos anos 70), o filme perde em grandiosidade e fica pobre. Ou seja, como disse lá no inicio, fiquem com Ohana... e com a tal virada de rumo de um personagem, interessante mas que não funciona a contento. A culpa? Mais uma vez, de Odilon Rocha.


NOTA: D-

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Dia 3 (Parte II):

Bem, espero que voces entendam. Tá sobrando filme visto e faltando tempo no meu dia. Por isso entrei agora correndo pra atualizar um pouco mais, e colocar como se fosse uma espécie de segunda parte do dia de ontem. O que importa? Bem, tem mais resenhas agora, é isso. Então, mãos a obra!

* Políssia:




Essa moça acima, muito bonita, típica diva do cinema em seu vestido vermelho, se emocionou tanto assim quando ouviu da boca do presidente do júri do Festival de Cannes desse ano (o sr. Robert DeNiro) que seu filme havia acabado de ser nomeado o Prêmio Especial do ano na competição. Não, ela não estava no elenco do filme (apenas); Maïwenn é também a diretora da produção, mais precisamente seu quarto longa como diretora. E sabem do que mais? O juri do festival estava certo. Não vi toda a competição ainda, mas seria muito injusto deixar material tão poderoso quanto esse sair de mãos abanando da mostra. Espero que seus filmes anteriores (não exibidos no Brasil) cheguem perto da qualidade desse, e a julgar por apenas esse, que venham os anteriores e os posteriores também. Incrível é que no filme (como atriz) ela passe tanta fragilidade, e se mostre uma leoa na condução do longa.

O filme mostra o dia a dia da divisão policial francesa de crimes contra a criança e adolescência, principalmente os de origem sexual. Casos assombrosos como os de crianças sodomizadas por avós, aliciadas por tios, mães que masturbam os próprios filhos para acalma-los (!!!!), são jogados na tela sem concessão, medo de arriscar e cheios de impacto. Conduzidos por um elenco excepcional que inclui Karin Viard, Marina Foïs, Joey Starr, Sandrine Kinberlain, Riccardo Scarmarcio, Fréderic Pierrot e muitos outros, o filme tem montagem estonteante, um roteiro que dificilmente sai do lugar e incrível força dramática. Apesar de seco e duro, o filme consegue emocionar vez por outra com um tema que é delicado em qualquer parte do mundo. Um acerto sem fim como esse que a crítica torceu o nariz, mas que DeNiro e cia. tiveram a felicidade  de não deixar passar em branco.


NOTA: A-

* Todas as Canções Falam de Mim:




Incrível como vários diretores estão falando sobre o jovem homem moderno, e sua maior inquietação nos dias de hoje: o medo de ficar sozinho. Tal qual 'Medianeras' e o já comentado aqui 'Bonsai', esse espanhol dirigido por Jonás Trueba vem também mostrar que ninguém quer ficar sozinho nos dias de hoje, e mais uma vez o foco é o masculino. Parece que depois de anos vendo mocinhas românticas americanas correr atrás dos principes encantados, teremos agora uma safra crescente do tal macho latino mostrando fragilidade e insegurança, correndo atrás do que for preciso para ser feliz; acompanhado, lógico.

Ramiro e Andrea namoraram por 6 anos, e durante esse período Ramiro passou de 'um homem inteligente, cheio de planos e projetos' a 'um cachorrinho sem futuro acomodado numa vidinha medíocre'. Talvez por isso Andrea tenha ido embora, e Ramiro passe agora seus dias sem ver muito sentido no que o rodeia. Sem se dar conta, vai passeando pelo que largou durante esse anos e mostrando ao espectador os motivos pelo qual qualquer mulher largaria qualquer homem. E nesse processo, a única coisa que percebe é que há muito tempo não se sentia tão apaixonado por sua ex-namorada.

Sem muito a acrescentar a uma história que está caindo no lugar comum, os pontos a favor do filme vêm exatamente no que citei acima, já que Ramiro literalmente dá de cara com o homem que foi deixando de ser ao longo dos anos, e nunca consegue perceber ou admitir isso, o que geralmente aconteceria. Se houver perdão a Ramiro, muito provavelmente será por méritos que nem são dele, mas que fazem do filme um programa não tão decepcionante quanto parecia a princípio.


NOTA: C+

* Naomi:




Filme israelense com ritmo iraniano e roteiro americano; esse samba do crioulo doido também está no Festival do Rio. Fugi dele nas cabines, mas hoje sem querer ele caiu no meu colo; não queria mesmo ter visto e estava certo, mas no fim das contas nem deu vontade de arrancar os olhos, muito pelas interpretações de Yossi Pollak e Orna Porat, mãe e filho que em dado momento dividem um terrível segredo. O diretor Eitan Tzur vem da TV isaraelense e estreia no cinema aqui.

A trama é tão básica que chega a dar raiva: Ilan é um sessentão casado com Naomi, uma jovem de 28 anos (e sua mãe desde o início aponta que o problema é dele se casou com alguém tão mais novo). Obviamente que a esposa começa a mudar, obviamente Ilan começa a segui-la, obviamente ele descobre que ela está tendo um caso. O cara é mais jovem que ele também, mas também não bate idade com ela; e ouvindo conselhos da própria mãe e sofrendo calado, Ilan resolve procurar o rival e expor o que sabe. A partir daí... o filme fica mais batido ainda.

Um certo sucesso de quase 10 anos atrás americano ('remake' de um original francês) tinha basicamente a mesma trama, excluindo a personagem materna que é o diferencial aqui. Aos poucos vemos o filme chegar ao fim sem qualquer pretensão maior que não a de passar o tempo. Ainda bem que Pollak e Porat embalam o pacote com muita propriedade.


NOTA: D+

* O Pior dos Pecados:




Filme com infinitas possibilidades e que vai jogando todas fora ao longo do caminho, essa adaptação de um célebre romance de Graham Greene é a estreia na direção do roteirista Rowan Joffe, que nunca escreveu nenhuma maravilha e que demonstra aqui que talvez esteja mesmo na área errada. Desperdiçando tudo e todos, ele parte de uma premissa batida mas bem interessante, e vai deixando cada vez mais a situação próxima a burocracia, sem nenhuma imaginação. Não é a coisa mais horrorosa do mundo, mas um 'Supercine' sem nenhuma imaginação.

O filme mostra o jovem marginal Pinkie Brown, um moleque capanguinha de um perigoso bandido. Quando a gangue de seu chefe começa uma guerra com uma rival, Brown mata um desafeto em nome do chefe e desencadeia uma série de acontecimentos sangrentos, exatamente porque esse crime teve Rose como testemunha. Rose é timida, introspectiva e nunca teve namorado, além de trabalhar para Ida, que tinha sido amante do falecido e é a única que parece querer saber a identidade do assassino. Mas Brown seduz Rose e tenta tapar os olhos e as lembranças dela, arremessando-a num turbilhão de acontecimentos cada vez mais violentos e revelando uma face que se desfigura a medida que Ida se aproxima dele.

O promissor Sam Riley (de 'Control') não rende aqui como era esperado, e Helen Mirren mais uma vez escorrega em cena, bastante equivocada e exagerada (como na atuação erroneamente indicada ao Oscar de 'A Ultima Estação'). Se sai muito bem no entanto é a novata Andrea Riseborough, fazendo os que os mais experientes não conseguiram, que é mostrar talento, segurança e preparo num filme que não tem nada de mais (e que já sai diretamente em dvd no Brasil mês que vem).


NOTA: C-