quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Cabin Days IV:

Hoje finalmente a tão aguardada revista com a programação do Festival chegou. Acho que talvez por conta disso, a movimentação ficou mais intensa na central de ingressos e podemos já ver o início do stress e da angústia. Vou parecer doido, mas sabem que acho isso tudo um barato? Não me importo nenhum um pouco em me esparramar naquele mesão do recém reformado Espaço SESC Rio (aliás, os cinemas ficaram uma graça com o layout do novo patrocinador) e ali ficar hora decidindo o que assistir, quando, encaixando e reencaixando datas e horários, mudando a agenda toda hora. Como todos dizem, isso também faz parte da magia do Festival. Nas cabines, o dia foi surpreendentemente bom, com 3 filmes acima da média.


* FunkyTown:



  De última hora decidi entrar nessa sessão, e foi uma excelente escolha. Eu achava se tratar de um documentário e hoje não tava bem para ouvir entrevistas e narrações em off. Pra minha sorte fui ler a sinopse e descobri que se tratava de um painel da 'disco music' nos anos 70 no Canadá, e os personagens que gravitavam ao redor dela em diferentes escalas. O diretor Daniel Roby laçou todos os maiores hits da época e criou a ambientação perfeita para uma história que, como a maioria delas, começa com o topo e termina com o fundo do poço. Com apenas 40 anos, Roby está em seu segundo longa e demonstra ao menos precisão no que quer.

  Como um bom painel, acompanhamos a vida de muita gente: Bastien é o apresentador de programa de tv e rádio super influente que acaba se apaixonando por uma alpinista social mesmo casado e tendo uma filha: Tino é um jovem dançarino que trabalha no restaurante da família e que não consegue definir sua sexualidade; Jonathan é um gay que trabalha no programa de tv de Bastien e vive em excessos, até se encantar com Tino; Mimi é uma mulher de mais de 40 que insiste em retomar uma carreira de cantora que já afundou faz tempo; Gilles e Daniel são pai e filho em pé de guerra, donos da boate de maior sucesso da atualidade, ponto de encontro de todos esses personagens. Conforme eles são se envolvendo e os anos avançando, percebemos que nada mais será como antes para eles, quase todos num caminho sem volta.

  O elenco é competente e dá conta do recado, e a soundtrack do filme é simplesmente eletrizante. Espécie de primo de 'Boogie Nights', ao menos no que diz respeito a visão dos anos 70 que ambos tem. Chamativo e exuberante, o filme escorrega no dramalhão algumas vezes, mas nada que comprometa o resultado final, pitoresco e cheio da vida que muitos desses personagens jamais terão.


NOTA: B-

* Raiva:



  Sendo vendido pelo Festival como "o primeiro filme de terror produzido por Israel", o filme é bem curioso e de certa forma original, ao menos na estrutura de seu roteiro e na forma como abdica de inúmeras cenas em prol da imaginação do espectador. Dirigido e roteirizado pela dupla Aharom Nehales e Navot Papushado, o filme tem cenas bastante fortes e nos faz pular na cadeira em algumas pasagens. Assim como 'FunkyTown', o filme teria também como classificar de painel pela forma como lida com os personagens. Outro dado interessante é ver essa ideia se aplicada numa produção cheia de sangue e sustos, nada batido.

  O ponto de partida do filme é o sequestro de um casal de irmãos adultos por um psicopata, sendo levados para um cativeiro numa floresta. Ao conseguir escapar desse pesadelo, não imaginam estar se envolvendo num ainda maior, já que a cada novo desdobrar do filme, um novo mal entendido perverso é cometido, em situações que vai caminhando cada vez mais para o lado do macabro, e até do humor negro. Duas amigas tenistas, um policial cuja esposa está grávida, um homem que acabou de deixar um recado na secretária eletrônica e ele terá de apagar.

  Com violência gráfica ao extremo e saídas super criativas para as reviravoltas do roteiro, o filme definitivamente não é para todos. Mas quem aguentar um sem numero de baldes de sangue, alguma escatologia, vai se surpreender com o roteiro bem amarrado e esperto, num filme cheio de sustos e que vale cada um deles. As lacunas que o roteiro deixa escorrer na tela também é fruto de um trabalho mais que consciente e tranquilo, que tenta dar algum ar renovado a um gênero que precisa de renovação constante.


NOTA: B+

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Cabin Days III:

Mais um dia, hoje com ameaças de chuvas e confusão com o início das vendas dos ingressos na Central. Os motivos? Os de sempre: não-liberação da maioria dos títulos, falta de sincronia entre informações na internet e na Central, ausência de um responsável capaz de responder às mais básicas questões. Mas é como eu sempre digo: é o Festival do Rio, galera. O conheço não é de hoje, e durante todos esses anos sempre houveram derrapadas; nada tira seu brilho, no entanto. Os filmes são as vedetes e sua principal razão de existir, e eles continuam aqui de uma forma de outra, demorando ou vindo correndo. Paciência a todos que tudo sempre acaba se ajeitando. Quanto aos filmes de hoje, foram eles:


* Bonsai:




  Cristán Jiménez dirigiu um filme que estreou somente em agosto no nosso circuito que tinha bastante a ver com esse seu novo filme em matéria de atmosfera/estado de espírito ('Ilusões Óticas'). Se levarmos em consideração que esse filme é melhor que o anterior, já dá pra animar e torcer pelo rapaz. Levemente parecido em tons com 'Na Cidade de Sylvia' (esse sim um dos grandes filmes latinos do cinema recente), esse 'Bonsai' fala acima de tudo sobre a pior das solidões: aquela que aparece mesmo quando não estamos sós. Quando nada faz sentido, quando amamos alguém sem saber porque, quando nossas atitudes tendem mais a responder aos outros do que simplesmente criar uma personalidade própria. Quando tudo dói tanto a ponto de qualquer passado ser melhor do que qualquer presente.

  Da abertura ao término, nós sabemos: Julio está só. E assim vai continuar. Na verdade, essa informação é dada no filme de maneira muito cruel e impactante, mas nas entrelinhas é isso. Durante a produção, vemos Julio hoje e 8 anos atrás, quando conheceu Emilia e com ela viveu um romance. Hoje eles não estão mais juntos, e Julio namora Barbara. Será que namora? Bem, é mais parecido com uma vontade de estar junto de outra pessoa, e ambos compartilham isso. Mas Julio não esquece Emilia, embora não a veja mais. Julio deve sentir falta dos 8 anos que passaram, e que pra ele tanto fizeram. O tempo não passou pra Julio, ou passou rápido demais. O dia de hoje é idêntico ao de 8 anos atrás. E o pior é que cabe somente a ele sair desse isolamento que ele mesmo criou, vivendo à margem da própria introspecção.

  Daqueles filmes que entram e só saem da cabeça meses depois, na verdade eu preferia de mais um tempo para digeri-lo; fazem só 8 horas que ele acabou e eu ainda estou descobrindo-o. Jiménez, comigo, ganhou um baita cartão que o leva para a próxima fase do jogo após esse triste estudo sobre a vida de alguém que corre avidamente para dentro de si mesmo. O intérprete Diogo Noguera o ajuda a contar essa história de forma intensa e dolorida, que marca a gente sem que nem tenhamos notado, e faz com que a lentidão do ritmo pareça apenas um detalhe dentro de uma produção que (como já falei) não sai da cabeça facilmente.


NOTA: A-

* Tiro de Pedra:




  Um segundo filme latino, esse aqui vindo do México, e uma segunda ótima interpretação, no mesmo dia. Aqui, Gabino Rodriguez nos prende a seu rosto bastante peculiar e move o filme do início ao fim, sendo presença em cena em 100% do tempo. Vencedor de inúmeros prêmios no ultimo Festival de Gramado (incluindo direção e roteiro, para Sebastian Hiriart, além de ator para Rodriguez - que apesar de ótimo, não merecia ter levado vencendo sobre Javier Drolas, estupendo em 'Medianeras'), não sei se entendo seus prêmios, tendo em vista que Hiriart na ânsia de parecer 'verdadeiro' nos vende um herói, pelo qual rapidamente desistimos de torcer.

  Jacinto Medina é uma espécie de pastor de cabras e ovelhas, e entendemos perfeitamente que ele não se sinta feliz. Sabe-se lá porque ele é obcecado por trens (ou apenas pelo que corta sua cidadezinha no interior do México), mas está cansado e quer ir embora pra longe. Tudo isso se justifica (ao menos na cabeça dele) ao achar um chaveiro com uma inscrição do Oregon, nos EUA. Daí ele cisma que tem de ir embora, atravessar a fronteira e chegar até lá, com uma convicção genuína. E ele parte pra lá fazendo besteira em cima de besteira, sendo roubado (mas também roubando), ora como vítima, ora como algoz de si mesmo. Se vai chegar ou não, será que importa? Afinal, o que esse homem pretende ao chegar lá?

 Como nem o diretor parece defender seu anti-herói, nos cabe ter muita raiva da ingenuidade do rapaz, que se traveste de esperteza sempre que conveniente. Já que apenas Rodriguez parece interessado em dar ao personagem dignidade absurdas (apesar da direção bastante feliz de Hiriart) e o roteiro segue sem saber dar um sentido a esse homem e sua busca, fico na minha e também prefiro lamentar não ter visto um filme melhor com personagem tão interessante.


NOTA: C-

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Enid no Festival do Rio 2011 - Cabin Days II:

No sábado, resolvi tirar um dia sabático. Apesar de me interessar por 2 dos 3 filmes do dia, descansei durante todo o dia, acho que já imaginando as próximas semanas. Com isso pulei diretamente para domingo, com os ânimos da galera ainda agitados pela falta de informação quanto às vendas, que começaram no meio do dia e fez gente debandar noite afora. Esses aqui foram os 2 filmes assistidos no domingo:

* A Árvore do Amor:



  É quase impossível que tenha um Festival do Rio que passe sem uma nova produção de Zhang Yimou. Ano passado tivemos 'Uma Mulher, Uma Arma e uma Loja de Macarrão', e o diretor já tem novo filme, que se bobear espera até o Festival 2012 para entrar em circuito. Esse que acompanhamos na edição 2011 é uma produção do ano passado, elogiado como a grande maioria dos filmes de Yimou, no que a crítica está sempre coberta de razão. Com uma estrutura e delicadeza que lembram bastante um filme seu chamado 'O Caminho para Casa' de 10 anos atrás, esse novo não é tão encantador quanto a obra similar, mas é igualmente emocionante, e seu casal protagonista também é encantador como no antigo.

  O filme mostra a jovem Jing passando por um reeducação estudantil no campo, tarefa que irá contar muito para seu aperfeiçoamento e poderá também contribuir para a sua rápida admissão como professora na mesma escola onde aprende. Sua família precisa desse reforço no orçamento, já que seu pai está preso como 'direitista'. É por isso que o romance que irá nascer entre ela e Sun não é algo a ser comemorado. Ao conhecer Sun na aldeia onde foi estudar, Jing se encanta de cara e vice-versa. Após alguns mal entendidos, Jing e Sun cansam de reprimir seus sentimentos e passam a deixa-lo florescer como a árvore que foi testemunha do início desse amor. Lógico que muitos empecilhos vão existir no caminho deles, e sua mãe não irá apoiar em nada essa situação, mas eles se mostrarão tão fortes quanto o espinheiro do título, batendo de frente com as muitas adversidades que irão se sobrepor a eles.

  A delicadeza típica de Yimou mais uma vez bate ponto, mostrando um viés harmonioso dentro de uma situação onde claramente poderia sugerir desespero e dramaticidade exacerbada. Mesmo sem grandes novidades e com algumas inserções pelo infeliz uso de cartelas para contar passagens absolutamente banais do filme, é impossível não sair tocado pelo romance do casalzinho jovem, que foi baseado numa tristonha história real e que fará muita gente torcer lencinhos nesse Festival.


NOTA: B+

* Corpo Celeste:



  Alice Rohrwacher está estreando como roteirista e realizadora aqui, mas será que ela nunca assistiu outros filmes sobre 'rito de passagem da infância para a fase adulta'? Impossível acreditar que não, e também bem difícil de acreditar que a diretora novata não tenha percebido a quantidade exorbitante de clichês em que mergulhava a cada cena, chegando por fim até a sugerir um arremedo de 'Menina Santa' que faria Lucrecia Martel urrar de raiva.

  O filme mostra a volta para a casa da pequena Marta, que após anos num internato volta para a casa no sul da Itália passando por um turbilhão de acontecimentos. Seus seios começam a aparecer, a menstruação chegou, seu cabelo não lhe agrada; numa menina pré-adolescente, isso é tudo muito grave. Soma-se a isso as implicâncias da irmã mais velha e as aulas de catecismo na igreja católica (que mais parecem aquelas aulas chatas da protagonista de 'Preciosa'), e temos uma pequena alma prestes a explodir. Ou implodir.

  Mais do mesmo, ok. O que não dá pra perdoar é o samba do crioulo doido que o filme se transforma quando Rohrwacher percebe que sua trama só renderia um curta. E aí da-lhe espinafrada na igreja; e da-lhe foco que se abre para outras tramas que não tinham importância alguma até a metade; e da-lhe desperdício de atores e personagens, que entram e saem aleatoriamente ao bel prazer da produção. Vendo claramente o filme naufragar na nossa cara, ainda nos resta engolir um final metafórico/simbólico que a novata nos empurra goela abaixo, nada condizente com o aspecto realista da produção.


NOTA: D-

Enid no Festival do Rio 2011 - Cabin Days I:

Pois começou tudo, galera. Com a abertura das sessões para a imprensa nessa última sexta-feira, já digo que o cheirinho do Festival do Rio já começou a ficar forte, e sua enxurrada de filmes que parece não ter fim já estão chacoalhando os cinéfilos cariocas. Muitas confirmações, tantas ausências... ou seja, mais do mesmo. Queríamos 'Shame' do Steve McQueen, 'Carnage' do Polanski, 'Once Upon a Time in Anatolia', do Nuri Bilge Ceylan, até o 'Garoto da Bicicleta', dos Dardennes, que estava mais que confirmado, parece ter ficado de fora. Não adianta chorar, galera... ano passado tiveram ausências, ano que vem também teremos. Não adianta esperar que não role; o que talvez adiante é começarmos logo cedo, no início de cada ano, a empilhar os filmes que importam e que queremos ver no Festival, já que agora temos até canais de comunicação direta, como o Facebook.

A cabine de sexta estava relativamente cheia, e foi um bom dia, com 2 filmes bem agradáveis abrindo os trabalhos. Vamos a eles:

* Um Homem Engraçado:

  Comédia dramática dinamarquesa que concorria a vaga de seu país na corrida do Oscar do próximo ano. O diretor Martin Zandvliet está apenas no seu segundo filme aqui, e dirige uma obra baseada numa história real, do que deve ter sido um dos maiores 'stand-up actors' da história da Dinamarca, Dirch Passer. No que isso tem de bom e ruim, o filme é todo certinho. Ao mesmo tempo que não vira uma salada chumbrega como aconteceu em 'Gainsbourg', tampouco o filme tem um roteiro extraordinário como o de 'O Mundo de Andy'; fica naquela seara mesmo das realizações feitas para louvar, onde o elenco se entrega e dá show, e ao diretor cabe apenas a tarefa de organizar cenas e cronogramas, interferindo pouco ou quase nada no resultado final.

  Basicamente, Dirch viveu freneticamente amores e carreira (que se extendeu por filmes, sempre com muito sucesso), tão freneticamente que as amantes saem, os filhos chegam, as amizades se interrompem, e não sabemos exatamente de onde vieram as situações. O foco principal é obviamente a amizade e parceria de anos com Kjeld Petersen, seu único amigo e partner nos shows que fazia. Segurando inúmeros pepinos que Dirch lhe entregava, Kjeld além de tudo ainda precisava observar o carinho descomunal que a plateia sempre teve por Dirch, quase ignorando-o. Quando eles se separam e surge a oportunidade de montar a peça dramática de seus sonhos,  Dorch joga tudo pro alto bancando esse sonho, mesmo que isso possa custar sua credibilidade e até mesmo sua carreira.

Os atores Nikolaj Lie Kaas e Lars Ranthe tem momentos incríveis como os 2 amigos que dividem palco e vida, nos permitindo embarcar numa história sem maiores atrativos ou reviravoltas. São eles o grande motivo para dar uma chance a esse filme simpático e divertido que até chega a emocionar, sem esquecer que o filme nunca pretendeu ir além disso.


NOTA: C+


* Contágio:



  Steve Sorderbergh vai se aposentar, e já está numa espécie de despedida coletiva. Esse novo 'Contágio' é um dos últimos, não se acredita que vai haver muito além de mais uns 3 ou 4 cujos contratos já foram assinados. Dois já estão prontos para serem lançados ano que vem, um está sendo filmado agora e o que deve ser o último (a vida de Liberace, a ser vivido por Michael Douglas) filmado ano que vem. Deverá sair de cenas aos 50 anos então esse americano de Atlanta que leva consigo todos os mais importantes prêmios que o mundo do cinema pode dar a alguém, incluindo aí um Oscar de direção ('Traffic') e uma Palma de Ouro em Cannes ('sexo, mentiras e videotape') em sua estreia no cinema. Sabe-se lá o que deve ser isso.

  Com tantos detratores quanto admiradores, muita gente já mandou rezar missas inteiras para que ele cumpra a promessa. Não faço parte nem de uma leva ou outra, mas acho sim grave que alguém jovem e cheio de algumas ideias interessantes resolva se aposentar, e uma meia dúzia de pangarés de Hollywood ainda insistam em mostrar trabalhos de origem mais que duvidosa. Como sempre aconteceu em sua carreira, esse produto é mais da linha 'blockbuster' do que do seu grupo de filmes autorais, de onde parecem que virão seus derradeiros filmes. E mais uma vez ele conta com um elenco extraordinário.

  Contando a ascenção de um vírus letal pelo mundo, Sorderberg e seu roteirista Scott Z. Burns (que já tinha entregue um senhor material pra ele, 'O Desinformante!') destrincharam várias histórias que margeiam a destruição que tal vírus vai fazendo pelo planeta. Temos um homem comum (Matt Damon) que acaba de descobrir que a esposa (Gwyneth Paltrow) foi infectada e passa a viver com medo; temos uma médica (Marion Cotillard) fazendo pesquisa de campo e que acaba sendo sequestrada por um grupo de pessoas querem ajudar seu vilarejo; outra médica (Kate Winslet) que ao mesmo tempo que caça o virus também morre de medo de ser infectada; um porta-voz do governo (Laurence Fishburne) que tenta salvar e ajudar a própria esposa (Sanaa Lathan) quando a notícia estoura; um blogueiro (Jude Law, por incrível que pareça o melhor do elenco) que passa a ser perseguido pelo governo por conta das denuncias que faz culpando o alto escalão pelas mortes; e muitos outros.

  Sem grandes novidades no gênero, o filme acaba ganhando muitos pontos por se posicionar de forma muito humana em todas as historinhas. Dificilmente tem uma posição burocrata no filme, não onde não se enxergue o ser humano no fundo, sempre. Com uma trilha sonora de arrepiar e um trabalho de som também incrível, o filme demonstra porque Sorderbergh não deveria ser descartado tão claramente. O cara ainda consegue fazer uma história ser bem dirigida, interpretada e parecer relevante.


NOTA: B-
 

sábado, 1 de outubro de 2011

A Voz de Enid: 'Família Vende Tudo'

Alain Fresnot é muito menos presente na cinematografia nacional do que se poderia imaginar. Tendo dirigido apenas um filme por década, desde os anos 70, após assistir 'Família Vende Tudo', não podemos ficar mais felizes por apenas daqui há pelo menos 10 anos voltarmos a assistir um novo filme do cineasta. Não por ele ser reconhecidamente ruim; filmes como 'Ed Mort', 'Lua Cheia' e 'Desmundo' não saõ descartáveis, muito menos observações sem empenho de linguagem cinematográfica. O alívio se faz obrigatório por não saber em que diabos estava sua cabeça quando decidiu levar adiante as filmagens desse roteiro de sua autoria, tão desprovido de qualidades, ambições ou propósitos.

Minto, e retiro o que eu disse: ambição alguma deve haver. E acho que podemos até perceber que ele queria dizer algo com essa produção, que não apenas ser um debochado. Ao vermos o humor com que ele abordou a obra de Luiz Fernando Veríssimo, por exemplo, sacamos como havia timing cômico lá, e não deixa de ser surpreendente que um dos maiores problemas desse novo filme seja a absoluta falta de timing e bom senso, em cada fotograma. Assistir a 'Família Vende Tudo', pra mim, foi como esticar durante 85 minutos uma das cenas mais pavorosas e vergonhosas do cinema nacional pra mim, que aconteceu em 'Orfeu' num relato sobre o assassinato do pai de Eurídice feito pela própria Patricia França que a interpretava (mal e porcamente, diga-se).

Óbvio, não é apenas falta do 'tempo de comédia' que nota-se na produção. O fato é que me sinto realmente mal em analisar o filme, já que eu vejo erro em tudo que lembro, e paradoxalmente tenho a mais absoluta certeza que Fresnot queria dizer algo com o filme que ficou nas entrelinhas, mesmo que muito pequenas. Ainda assim, olho e lembro o que vi... algo ali não era a toa. Mas realmente, não dá pra aturar uma comédia sem graça, acima de tudo.

A trama por si só já é de uma tristeza sem fim: uma família de muambeiros perde tudo que tinha na ponte que separa Brasil e Paraguai, durante uma apreensão policial. No Brasil, o filho mais velho também é vítima da polícia, que leva todas as mercadorias que eram vendidas informalmente. Diante das ameaças do vizinho que emprestou dinheiro a eles para a viagem, não veem outra saída que não vender sexualmente a filha para o cantor do momento, um cara mais que mulherengo (apesar de casado) e que é o rei de um ritmo criado para o filme chamado 'xique'. A partir da noite de amor dos 'pombinhos', é que se desenrola o resto do roteiro de quinta.

Dá pena de falar mal, porque Caco Ciocler dá um show como o cantor Ivan Carlos (e as tais músicas do cara, de tão inacreditáveis, sejam talvez as únicas coisas engraçadas do filme),  porque Lima Duarte e Vera Holtz são igualmente excelentes, porque o rapaz Robson Nunes é uma grata revelação; enfim, elenco o filme tem, e eles não estão brincando em serviço. Mas o filme, além dos cortes abruptos, da montagem infeliz, da fotografia de José Roberto Eliezer que parece ter deixado a qualidade bem longe (cadê o responsável pela luz de 'Encarnação do Demônio', 'Luz nas Trevas', 'Nina' e 'O Cheiro do Ralo'?), também tem situações inexplicáveis, como um menino de 8 anos que é marginal, uma cega que aparece em uma cena e nada mais, Marisa Orth se dizendo pastora evangélica, nudez gratuita de uma menina de menos de 20 anos na frente de toda a família, um incêndio numa mansão que é ignorado, uma empresária homossexual e que assedia a esposa do cliente. Tudo tão gratuitamente absurdo, que eu só posso crer ter sido proposital. O problema: isso tudo poderia ser de fato engraçado em outras mãos; aqui não é.


NOTA: E+

A Voz de Enid: 'Contra o Tempo'

Se eu começasse uma crítica há 3 anos atrás citando que o filme em questão era dirigido pelo filho do David Bowie, pelo menos apreensão eu sei que iria causar. Hoje, Duncan Jones não causa mais esse tipo de reação. Em lua de mel com cinéfilos dos quatro cantos, Jones é filho do 'camaleão do rock' e tem não apenas um, mas 2 grandes filmes no currículo. O primeiro deles não lançado nos cinemas brasileiros, nunca tive a oportunidade de escrever spbre 'Lunar', uma das ficções científicas mais instigantes de 2 anos atrás, numa temporada que também trazia para o público os imensamente badalados 'Avatar', 'Distrito 9' e o remake de 'Star Trek'; reluzindo da mesma forma que seus irmãos milionários, 'Lunar' trazia um homem em cena (o sempre excelente Sam Rockwell) e muitos questionamentos, envolvendo clonagem e os limites da ética dentro da ciência.

De alguma maneira, esses temas são retomados em 'Contra o Tempo', que durante muito tempo assustou os cinéfilos brasileiros, que jurava ver nele o mesmo destino do filme anterior de Jones por aqui, indo amargar as prateleiras das videolocadoras sem dar um pulinho nas salas de exibição. Depois de atrasos que passaram por abril, junho e julho, entrou em cartaz ontem essa produção que, se não repete o brilhantismo do primeiro, ao menos deixa claro que Jones não chegou pra brincadeira no circuito. E mais: precisamos mesmo aturar 'Transformers', 'Thor', 'Lanterna Verde' e blockbusters similares, quando esse filmaço de ação e suspense não nos trata como retardados?

A trama do filme só parece complexa, mas assim que todas as dúvidas vão deixando a cabeça do protagonista, o mesmo acontece com a gente. Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) acorda de um cochilo num trem em movimento. A sua frente, uma mulher (Michelle Monaghan) que ele não conhece dizendo coisas que ele não entende. O que ele faz ali? Em sua última lembrança, o sargento Stevens estava numa missão no Iraque. De repente, uma explosão e o trem vai pelos ares. Stevens então acorda numa situação ainda mais bizarra, dentro de uma cápsula e sendo acordado por uma pequena tela na sua frente. De dentro dela, imagens da sargente Goodwin (Vera Farmiga) tenta explicar sua situação: Stevens está ali servindo ao governo americano, na condição de cobaia de um experimento que liga a mente de pessoas a beira da morte através de uma fenda no tempo que ocorre nos últimos 8 minutos de vida dela. Stevens é o agente desse experimento, e precisa continuar indo quantas vezes forem necessário até aquela mesma situação pré-explosão do trem, e durante apenas 8 minutos descobrir quem é o terrorista responsável pelo ataque, que está dentro da locomotiva.

Parece complicado, né? Eu sei, na descrição parece mesmo um bicho de sete cabeças. Mas acreditem, na tela funciona que é uma beleza. Num esforço conjunto de roteiro, montagem, trilha sonora, um minúsculo elenco (além dos citados, temos também Jeffrey Wright) e direção precisa, o filme é um blockbuster de extrema qualidade, como dificilmente temos visto. Por que? Entre outras coisas, porque não subestima a inteligência de ninguém, além de nos deixar sem fôlego do início ao fim.

Enxuto como poucos (apenas 90 minutos de filme!) e com uma história rica pra contar, Jones mais uma vez aposta na humanidade que pode escapar assim que a ciência começar a ditar ordens entre os homens. Não satisfeito de entreter e fazer pensar, o filme ainda emociona e chega ao cúmulo de surpreender, com um desfecho bombástico que poucos estão pegando (observo entre os que já assistiram essa falha que pode mesmo passar despercebida). Ou seja, um filme quase perfeito, uma diversão de primeira, e um nome que já não depende do pai para chamar a atenção.


NOTA: B+

30 Dias. Todos os Dias.

Férias. Festival do Rio. Amigos. Um lugar diferente para ficar. Tateando no escuro novas situações. Uma coisa de cada vez, ou tudo ao mesmo tempo agora?

Aniversário. Mãe. Facebook. Internet. Oscar. Clássicos. Pessoas e noites, noites e pessoas. Minha vida sempre foi assim... uma ora entulhada, outras cheias de bolas de feno rolando. A segunda opção se fez presente durante algum tempo, alguns tempos de uns tempos pra cá. Muito tempo livre acaba criando muita ausência de ideias e de material orgânico.

Não aguento mais falar dos últimos 2 anos, e de me vitimizar em cima de uma coisa mais que morta e enterrada. Durante esse período, vivi uma fase cheia de som e fúria... vazia, e ao mesmo tempo supersônica. Viagens, estados... Goiás, São Paulo... pessoas e noites, noites e pessoas. No fim das contas, sempre o silêncio.

Pai. Família. Trabalho. Trabalhos. Filmes. 167. Morte. Não adianta insistir, querer diferente, querer mais ou imediatamente. O tempo é meu algoz, então tenho de tentar uma trégua com ele. A visão de uma vida tranquila, sem templos, sem numeros, sem semanas, sem judeus, é uma verdade que vem do futuro. Um tempo ainda não vivido, mas cuja saudade já é sentida. Hoje, vivo dias e noites melhores. Tranquilo e consciente das minhas dificuldades e sonhos. Quem não os tem?

Vou tentar voltar e equilibrar tudo. As neuras, os medos, as ansiedades... nada demais, tudo na medida. Preciso desses 30 dias para virar o mesmo Francisco de sempre. Não adianta, não pra ser outro... não quero ser outro. Cheio de manias, cheio de bobeiras, cheio de crises, cheio de gargalhada... But clean. Limpo. Ou seja, o mesmo... porém, outro.

Vida. Caminhos. Beijo. Avião. Liberdade. Beleza. Sentido. Música. Futuro. Cabelo. Visão. Certeza.